Jomard, clown tropical

13 out 2026 | 0 comentários

Foto Reprodução

Por Luiz Otávio Cavalcanti

Li o que não gostaria de ter lido: Jomard encantou-se. Encontramo-nos algumas vezes. Afeto à distância. Fui até a estante, apanhei Do Modernismo à Bossa Nova (Ateliê Editorial, São Paulo, 2009). Apresentação de Glauber Rocha. Que começa dizendo que Jomard é um pernambucano de “muitas artes escondidas”. Que o que o aproximou de Jomard foi a paixão pelo cinema “na decente Recife”. Que o “esteta rigoroso era jornalista, o jornalista era professor e o professor era sambista”

Mais adiante, Glauber escreve que o que mais o fascina em Jomard é sua “desaristocratização". Porque ele não tinha arrogâncias, nem princípios sagrados. E acentua: “Sua erudição é diluída no seu grande interesse pela vida”. Vida que o cerca. E completa: “Meu irmão Vinicius de Moraes, demitido de ser Valéry para ser o maior poeta popular do marasfalto, é o pai desta revolução contra as musas sofisticadas”.

A seguir, Glauber dita: “Vinicius deixou ver ventres mulatos e varreu o tango-bolero, carregando de poesia as vassouras de Tom Jobim, Carlinhos Lira, Baden Powell, e outros”. Para destacar: “O grande benefício que Jomard nos presta é ombrear um poeta a outro”.

Vou folheando o livro na escrita de Jomard. Que aborda a primeira contradição do modernismo: o espírito de demolição do hoje, ruptura de choque, aliando-se à tentativa de renovar-se, continuando. Ruptura das “igrejinhas”, do empolado, decadente. E ressalta duas personalidades amigas, ao mesmo tempo tão independentes: Mario de Andrade e Manuel Bandeira. E destaca: “O modernismo foi anárquico, não tinha chefes”.

Em seguida, Jomard lança um olhar para João Cabral de Melo Neto: “Desde Pedra do Sono até o Engenheiro que se trava a luta entre o sonho e a lucidez do poeta. Mesmo em face do clima onírico mais liberto da realidade comum a todos, mesmo diante do estado poético em sua dimensão surrealista, ele luta para manter com lucidez a disponibilidade para enfrentar o poema de olhos abertos”. E agrega: “O engenheiro é o lúcido. O inventor é o translúcido”.

Sobre a f(p)onte comum do lirismo, Jomard escreve: “O que na poética da revolta de Carlos Drummond de Andrade era contradição entre o ódio e a flor, entre a ironia crítica e o amor-doação, reconstrói-se a poesia de vanguarda. E no poema práxis em termos análogos de conflito fecundo: de um lado, a conscientização política, o inconformismo diante do subdesenvolvimento; por outro lado, o apelo à infância, a solicitação da poeticidade, o retorno à esperança”.

No final do livro, percebo que Jomard, professor, autor, jornalista, era sobretudo um clown. Um riso diante da vida. Um gesto de encanto. Sempre surpreso frente ao espetáculo diário do viver. 

Ele termina fazendo uma invocação a um dos grandes que Pernambuco deu ao Brasil: “Pelo eterno retorno de outrem, o mais premiado percussionista Naná Vasconcellos, regendo dezenas de maracatus, na abertura do Carnaval do Recife, reci-ferido, recifeliz”.


Luiz Otávio Cavalcanti é professor

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