JMB e a música

13 out 2026 | 0 comentários

Por Ricardo "Cacá" Maia

Jomard Muniz de Britto era antes de tudo, ao meu ver, um amante da música, da oralidade e da escuta. Ele gostava muito de ir para apresentações musicais e escutava os discos de seus artistas preferidos, sempre ávido pelos trabalhos mais recentes e de novos músicos. Sempre percebi seu entusiasmo com a cena musical brasileira contemporânea e pelo calor das atualidades musicais. Jomard também percebia as sonoridades como uma porta importantíssima para sua forma de atuação no mundo a partir do que ele chamava da Língua dos três Pppês: Poesia, Política e Pedagogia. Escreveu sobre a Bossa Nova e fez dois manifestos para o Movimento Tropicalista - textos endossados e o último assinado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros tropicalistas de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte, em que defendiam: “A vanguarda contra a retaguarda! A loucura contra a burrice! O impacto contra e mediocridade! O sexo contra os dogmas! A realidade contra os suplementos! A radicalidade contra o comodismo! Tropicalistas de todo mundo, uni-vos”.

Com sua câmera Super-8 filmou Alceu Valença no início de carreira – em “Amanhecendo” (1981) feito por ele e Rucker Vieira – e usou trechos de músicas de Caetano Veloso e Novos Baianos, só para citar alguns artistas que ele adorava escutar e que cultivou convivências e produções - além de ter musicado algumas poesias próprias em seus filmes, como em “Lua Luta por Lula” (1981) composta em parceria com Ricardo Silva. Fez parcerias com o Laboratório de Sons Estranhos (LSE) de Aristides Guimarães, a partir de 1968, e produziu com o mesmo, Tonico Aguiar, Ricardo Silva, Isaac Costa e outros músicos o disco intitulado “Pop Filosofia – O que é isto?” (1997).

Eu tive o prazer de compartilhar uma produção com ele chamada “JMB em Comuna” (2007). Nesse trabalho, eu perguntei se ele gostaria de gravar algumas poesias ou Atentados Poética – como gostava de chamar – para fazermos um disco juntos. Em poucos dias, ele retornou com os textos já captados em CD. Foi uma grande oportunidade para experimentar a produção musical com o grupo que eu tinha na época: A Comuna. Estávamos começando a usar DAWs, interfaces digitais de áudio e microfones, Jomard sempre generoso nos deu uma chance de ouro e nos deixou livres para fazermos o que quiséssemos com suas gravações. Após o lançamento do disco, fizemos alguns shows com Jomard em três eventos pela cidade do Recife, um deles gravado em audiovisual no auditório que existia na Livraria Cultura – está disponível completo no Youtube.

Foto Acervo

Na mesma época, ele disponibilizou para eu postar no Youtube os seus filmes e aproveitei para fazer videoclipes com as faixas do JMB em Comuna, mais uma vez ele nos deu a liberdade total para fazer o que quisermos com o material fílmico dele, o que foi um grande exercício com a linguagem do audiovisual e uma forma de aprender a usar os softwares de edição de vídeo. Jomard sabia da potência da oralidade, das sonoridades, da música e do contato que os sons proporcionam com as pessoas e com o dia a dia, assim como fez ao longo da vida, uma política do ordinário e dos encontros. Por isso admirava e apostava na produção musical, sempre instigado pelas misturas, pela liberdade e pela ousadia com sua arte.

Lembro quando fomos a alguns shows, especialmente, o lançamento do álbum “Cê” (2006) de Caetano Veloso, em Recife, em que ele nos levou ao camarim para apresentar a quem ele tanto admirava e conhecia bem, nós jovens loucos para conhecer um de nossos grandes ídolos na música. Jomard nos apresentou para Caê e disse com seu humor característico que nossa banda se chamava Comuna Ex-experimental – porque havíamos abandonado o Experimental, e só estávamos usando o nome Comuna – e o músico baiano falou que isso parecia coisa de Ex-exu, nome que alguns anos depois foi adotado pela minha banda seguinte chamada Ex-exus. JMB esteve presente em toda minha trajetória musical e sempre foi um guia para minhas opções estéticas e éticas.

Compartilhamos muitos shows e trocamos escutas musicais. Ele foi num dos primeiros shows da então Comuna Experimental em que tocamos “Alguém Cantando” de Caetano e assim começamos uma grande amizade em que Jomard ia nos bombardeando de ideias e provocações, presente em quase todas as nossas apresentações no Capibar ou em outros espaços da cidade do Recife. Outras vez, eu e Glauco – compositor, vocalista e pianista d’A Comuna – começamos a botar letra em uma de suas composições, chamada Moenda, fui puxando versos de Jomard que foram se encaixando muito bem na canção, foi um momento incrível e uma música que marcou nossa trajetória com textos de Jomard: “Povo, polvo pó/ Corte sincopado para o pó brilhando nu/ Pó eletromagnético” – foi uma epifania os instantes da composição e mais uma vez tivemos a liberdade de uso dos fragmentos dos Atentados Poéticos de JMB, sem nenhuma restrição e com muita generosidade.

A busca pela liberdade sempre foi uma marca de Jomard e a música foi um campo em que ele encontrou para transar sua multiplicidade e inquietudes artísticas. Memórias que ficam comigo em sons e música, algumas compartilhadas aqui e agora, outras esquecidas durante a feitura desse texto mas, todas bem vivenciadas. Ainda ouço com frequência sua voz grave transgredindo os limites da caretice e revigorando a cultura e a arte brasileira. Viva JMB e a música que ele curtiu tanto e realizou com entusiasmo – “sejamos corajosamente ridículos”, com luta, Jomard, sempre!  

JMB em Comuna, apresentação no Festival A letra e a voz, 31 de agosto de 2008. Imagens de Bruno Bandeira.


Ricardo Maia é professor, jornalista, pesquisador e produtor cultural

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