Por José Teles
Samba de Latada, documentário de João Lucas Melo, sobre esta nuance menos popular do forró, teve a primeira exibição na mostra de cinema da recente edição do festival Mimo e estará disponível no YouTube a partir do dia 16 de outubro. Um doc, naturalmente, recheado desta variante do samba, que frequenta os arrasta-pés desde que o samba é samba, mas só chegou ao disco em meados dos anos 60, com Abdias, sanfoneiro e produtor de forrozeiros na CBS.
O cantor e compositor Josildo Sá, pernambucano de Tacaratu, tem o merecido protagonismo no filme. Há 20 anos, ele foi responsável pelo resgate do samba de latada, em parceria com o paulista Paulo Moura (1932/2010), um dos mais importantes músicos brasileiros do século 20. Este subgênero do forró estava praticamente esquecido. Fez sucesso entre 1965 e 1969, quando o forró de duplo sentido chegou forte às paradas, extrapolando as divisas dos estados nordestinos, a partir do pioneiro xote Procurando Tu, com o Trio Nordestino [Antônio Barros].
O samba de latada obteve um sucesso nacional extemporâneo em 1976, quando Pra Não Morrer de Tristeza [João Silva/K-Boclinho] foi gravado por Ney Matogrosso e se tornou um clássico no repertório do cantor. Desde então teve diversas regravações, entre estas de Luiz Gonzaga e de Núbia Laffayete. Mas o estilo no geral caiu no esquecimento. No início dos anos 2000, Josildo passou a incluir sambas de latada no repertório, mas o que a princípio era um gosto pessoal, acabou ganhando o país, e um prêmio Tim, então o mais importante da música brasileira. Graças à parceria com Paulo Moura [confira a entrevista a seguir em que o cantor conta como tudo começou].
A parceria rendeu dois discos e um DVD [gravado ao vivo no Teatro de Santa Isabel], e interrompida pelo linfoma que acometeu Paulo Moura, e foi causa da sua morte aos 77 anos, no Rio de Janeiro. Para ele não foi difícil assimilar aquele samba inusitado, aparentado com a gafieira, na qual Paulo Moura era expert. Aliás, no mesmo ano em que gravou o disco Samba de Latada com Josildo Sá, ele lançou um álbum chamado Gafieira Jazz.
O documentário
O filme de João Lucas Melo vai além do samba de latada, é um ensaio sobre o sertão, cultura e costumes que, para quem não o visita, imagina-se que não mais existem. Localizada na região do Médio São Francisco, a 453 km da capital, Tacaratu, de 25 mil habitantes, parece ser ideal para o samba de latada, que segundo Josildo Sá é mais do que um estilo musical. “A latada é toda uma culinária. A latada é o povo, é o ritmo, é uma festa”, definições ditas no início do doc pelo cantor (voz em off). A latada pode ser também um clima, um estado de espírito, cuja trilha não precisa ser obrigatoriamente samba.
Roberta Jansen, roteirista, confirma e esclarece a asserção: “Esta tradição do povo sertanejo se reunir nas festas. Num puxadinho da casa pra fazer as festas da família, os aniversários, os batizados. Pode-se dizer que foi onde surgiu o forró mesmo como ritmo. Nas festas se tocava de tudo. Não havia definição do que era samba e o que era o forró”.
O filme confirma as definições de Josildo Sá, é música [rendeu um EP com quatro canções, não restritas ao samba de latada. Uma delas, feita com Bráulio de Castro, não entrou no filme], e ao longo dos seus 27 minutos tem como leit-motiv a construção de um puxadinho onde, no final do filme, casais dançam com o samba de latada Quixabinha [parceria com Anchieta Dali] cantada por Josildo Sá, com acompanhamento gonzaguiano: sanfona, triângulo e zabumba.
O doc Samba de Latada tem participações de Gennaro, Anchieta Dali, Apolônio da Quixabinha [compositor popular de Tacaratu], Andrezinho Vieira e Kiko Silva. Depoimentos do professor Carlos Sandroni e do jornalista José Teles. O roteiro é de Roberta Jansen e do diretor João Lucas Melo.
O samba de latada juntou Josildo e Moura
Josildo Sá tornou-se o primeiro cantor de samba de latada, uma das vertentes do coletivo forró. Explica-se: Abdias, João Silva e Osvaldo Oliveira cantavam este estilo nordestino do samba carioca, porém como mais um dos ritmos que incluíam nos seus discos. Josildo assumiu-se como sambista de latada, gravando até frevos com este viés. Mas como isto aconteceu? E como ele atraiu Paulo Moura, um dos mais conceituados instrumentistas do país, com verbete na Enciclopédia Britânica, em 2006, para um projeto com um cantor ainda não reconhecido nacionalmente, e com uma música que para ele seria uma incógnita? Josildo esclarece nesta entrevista.
José Teles – Por que você resolveu resgatar o samba de latada a partir do seu segundo disco, há 20 anos?
Josildo Sá – Eu cantava samba de latada desde sempre em meus shows. Aí eu vi que era uma música que estava pouco divulgada e resolvi cantar, pela tradição, porque sempre gostei desta música que poderia render mais, então resolvi resgatar isso. Convidei Anchieta para a gente fazer Quixabinha, e começou a oficializar mesmo o samba de latada. A música é do meu segundo CD, Coreto (2003). Isso a partir de ouvir muito Abdias, João Silva, Jackson, Marinês, Osvaldo Oliveira. Comecei a cantar esta música que tava muito esquecida e resolvi tocar pra frente.
E como Paulo Moura entrou nesse projeto? Por essa época ele já era quase um músico erudito. Como você conheceu ele?
Conheci por intermédio de Jorge Hopper, que trabalhava com Joaquim Américo, da loja de discos Allegro Cantante. Paulo Moura veio ao Recife. Paulo era publicitário, foi trabalhar em João Pessoa, deixou o carro aqui e pediu que dirigisse, fosse o anfitrião de Paulo Moura e da mulher dele no Recife. Falei a ele sobre meu segundo disco. Ele já conhecia meu primeiro CD, Virado num paletó véio. Pus o disco Coreto pra tocar no carro, e ele começou a botar defeito. Queria dizer, a fazer observações. Disse que aqui a voz estava mais alta do que a banda, que ali o baixo estava alto. Eu disse a ele que quando fosse fazer um novo projeto iria chamar ele para produzir. Ele disse que viria com prazer pra qualquer projeto que eu fizesse no Recife. E foi assim que aconteceu. Mas só que quem produziu foi Anchieta Dali, ele veio pra tocar. E aí o samba de latada pegou embalo.
Quando você pensou este projeto?
Pensei em tocar o samba de latada em um projeto para a Prefeitura, o prefeito era João Paulo, o carnaval multicultural. Achei que caberia forró e samba de latada no multicultural. Levei o projeto pra Prefeitura. A secretária de cultura era Ada Siqueira; o produtor, André Brasileiro, e eles toparam. Esse projeto eu ia fazer com Arlindo dos Oito Baixos. Dias depois eu tava tomando umas e comentei com Roberta [Jansen, sua mulher e produtora] que quatro anos atrás Paulo Moura tinha prometido participar de um projeto meu. À noite liguei pra ele. Lembrei do que ele prometeu, cantei uma música [canta a estrofe inicial], Paulo gostou muito. Disse a ele que tava fazendo aquela música com Arlindo, mas tinha cantado como um coco, porém queria a música como samba de latada. Ele topou vir. Fizemos três shows no carnaval. Foi um grande sucesso e resolvemos gravar o disco Samba de Latada.
Por que Arlindo não entrou no projeto?
Eu tinha um sonho de levar o projeto Samba de Latada em Revoada pra outros lugares, fazer turnê, e Arlindo já estava debilitado, cego, com dificuldade de locomoção, então fiz com Paulo Moura.
Mas você faz um samba de latada diferente do que fazia Abdias, com outro instrumental, outra temática.
Foi inspirado em Pra não Morrer de Tristeza, de Abdias, João Silva, Osvaldo Oliveira, que criamos o samba de latada do sertão, da nossa história aqui [refere-se a Tacaratu, no sertão pernambucano, onde cresceu e morou até recentemente]. Fizemos em Quixabinha [um sítio na referida cidade], que vem para cá e os pernambucanos que produzem fora.






































































































































































































































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