Tempos felizes

13 out 2026 | 0 comentários

Paulo Cunha, JMB, Amin Stepple e Geneton Moraes Neto. Foto Ana Farache

Por Paulo Cunha

A imagem da saudade e da solidão: uma fotografia, feita há mais de dez anos por Ana Farache, de quatro pessoas, quatro grandes amigos, num palco, durante um debate. Foi um encontro feliz, o último que tivemos todos juntos. Agora estou só. Primeiro partiu Geneton Moraes Neto, depois Amin Stepple Hiluey, agora Jomard Muniz de Britto — o que decreta o encerramento de 53 anos de convivência, de cumplicidade e de afeto entre nós. Nunca imaginei que caberia a mim carregar o fardo dessas cinco lembranças. 

1

Não sei mais por que no início de uma noite do começo de 1973 eu fui na casa em que Jomard Muniz de Britto morava com os pais, nas Graças. Também não recordo se fui sozinho ou se estava acompanhado por Geneton Moraes Neto. Mas sei que a conversa era sobre os curtas em super-8 que todos estávamos fazendo para inscrever na Jornada de Curta-Metragem de Salvador. Vinte anos mais velho do que nós, Jomard vibrava de energia, nos incentivava a concluir os filminhos. Num determinado momento da conversa, lembro bem, chega ao apartamento térreo onde estávamos Flaviola, como era conhecido o cantor e compositor Flávio Lira, que morava no prédio defronte. De repente, por intermédio dele, tudo se conectava: o super-8, a nova cena musical e depois o teatro (com o Vivencial), a poesia, a filosofia…

2

Andando nas ruas do Rio de Janeiro, comecinho dos anos 1980, paro na vitrine da Livraria Francesa e vejo um livrinho de bolso sobre a relação de Maiakovski com o cinema. Entrei e comprei. De volta ao Recife, converso com Geneton: “Tem um roteiro lindo de Maiakovski chamado O Coração do Cinema. Que tal se a gente filmasse essa história?” Não dava. O roteiro tinha não sei quantos personagens, muitos diálogos, locações diferentes. Geneton, sempre esperto, sugere: “A gente mantém o título, que é lindo, e filma uma viagem de Maiakovski ao Brasil!” Então escrevemos um novo roteiro e convidamos Jomard para fazer o papel de Maiakovski enlouquecido pelo sol brasileiro. Num momento do nosso curta, a voz poderosa de JMB grita o verso de Maiakovski: “Em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz!”

3

Jomard foi feliz. Muito. Tendo passado pelo que ele passou, não seria evidente. Perseguido por ter sido um dos principais assistentes de Paulo Freire na montagem do método de alfabetização — e conscientização — de adultos; denunciado numa nota nos jornais por uma professora da UFPE depois do golpe de 1964; demitido e preso numa cela ao lado do comunista Gregório Bezerra — ele foi feliz mesmo assim. Sempre sorrindo, sempre criticando com afeto, sempre dançando nos bares populares do Recife, sempre alimentando o poder da amizade. Vi, algumas vezes, nos anos 1970, Jomard bailar boleros no Bar Central (o antigo, que ficava diante da Casa de Detenção do Recife). Como o vi dançar frevo no Sítio dos Irmãos Valença, na Madalena. E como dançava bem! Como era feliz…

4

Quando passei a ensinar na UFPE, depois de criado o Programa de Pós-graduação em Comunicação, eu gostava de uma disciplina chamada Teoria da Imagem. No primeiro dia de aula, entro na sala e vejo Jomard sentado numa carteira de estudante. Disse: “Vou fazer essa sua disciplina.” Fiquei totalmente desconcertado. “Mas como assim? Ser meu estudante?” Ele riu e ficou até o final do semestre. Não sei como pude superar o desconforto de ensinar a quem eu vira dar aulas, na Escola Superior de Relações Públicas (onde ele se empregou depois de demitido pelos militares da UFPE), literalmente revolucionando a forma de mobilizar uma turma. Não houve, para mim, nenhum professor tão bom como Jomard.

5

Jomard adorava fazer farras imensas. No começo, eu o via tomar Cuba Libre (rum com Coca-Cola), posteriormente uísque Teacher's (“Sou professor, só bebo Teacher's”, dizia quando alguém sugeria marcas mais caras). Suas conversas na noite eram impagáveis. Lembro de uma noitada absurda que eu e Ana Farache vivemos com ele na chamada “Praça da Alimentação” — na realidade um monte de barraquinhas populares que ficavam defronte à boate MKB, na Boa Vista. Era muito divertido acompanhar os comentários de Jomard sobre as drags supermontadas que desciam de carros luxuosos. “Esse veio de Boa Viagem.” Até as 4 horas da madrugada, Jomard foi saudado por dezenas de figuras da noite.

Fico agora reinventando imagens desses momentos. Triste pela partida de Jomard e feliz de ter tido a sorte de tê-lo por perto tanto tempo.


Paulo Cunha é jornalista e cineasta

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