O novo escritor no novo-romance-novo de João Câmara 

10 set 2026 | 0 comentários

Foto Thiago Medeiros

Por Sidney Rocha

Durante o lançamento de Rondó da Lagoa dos Irerês, de João Câmara, a jornalista Beatriz Castro me fez uma pergunta, para começarmos o debate. Queria saber qual escritor encontrei naquele romance.

 O tempo era curto e o texto aqui é também corrido e por isso resumirei. 

Pra começar, eu disse, encontrei um escritor de grande ambição literária. E repito isso no melhor sentido. João Câmara não deve estar nada interessado em somente contar uma história, apresentar personagens, conduzi-los até o desfecho. Isso é o mínimo a se pedir a qualquer narrador. Ele quer, eu disse lá, é construir seu mundo e, ao mesmo tempo, investigar como esse mundo se forma na memória, na imaginação, na História e na linguagem.

Isso me chamou a atenção nesse primeiro romance: a confiança na literatura. João confia de o leitor ser capaz de acompanhar uma narrativa decidida a não entregar tudo imediatamente, capaz de entender mudanças de tempo, de perspectiva, de escala, onde pode ir de uma lembrança infantil a uma reflexão filosófica ou estética sem precisar explicar ao leitor as razões dessa passagem.

Um dos grandes achados do romance, para mim, está justamente em como ele criou estrutura e arquitetura a partir do uso ou da compreensão do tempo. Os horários precisos aparecem ao longo do livro para organizar a narrativa, como se estivéssemos diante de uma cronologia quase documental. Mas acontece o contrário: cada minuto abre uma passagem para outro tempo. O presente é o passado cheio de infância, memória, história, imaginação e futuro, também. A própria estrutura do livro cria essa experiência. Na orelha do romance, chamo isso de “regime de repetição e deslocamento”: o relógio promete uma ordem que a consciência desmente o tempo todo. 

Daí aparece Mestre Francisco, o personagem tão bem “inventado” por Câmara. Capaz de concentrar profundamente essa experiência. Esse homem acumulou conhecimento, pesquisa, livros, hipóteses, memória. Mas descobre que conhecimento nenhum nos protege da passagem do tempo ou da perda. Não é um tipo. Não é o intelectual babaca, enamorado de si. Ele percebe, tarde demais, a meu ver, ter sobrevivido às próprias certezas. É o herói trágico, no melhor sentido literário, porque luta contra forças e, ao tentar enfrentá-las, acaba sendo também o responsável pela própria queda.

Depois de Bentinho, Paulo Honório, Fabiano, Riobaldo, Macabéa, Maria Moura e Quaderna, não me lembro de outros mais recentes e tão marcantes. E, quanto a esses, já se vão muitos anos de sua aparição na literatura nacional.

Ao lado disso existe uma outra invenção extraordinária: o personagem Lotan. Nele, João Câmara amplia radicalmente o campo do romance. Ele cria uma cosmogonia toda arbitrária, onde esse Lotan antecede a própria ideia humana de identidade. Sem identidade, não se reconhece nada ou ninguém. O monstro é puro estranhamento. Ou esse de João Câmara o é. O monstro desorganiza todas as categorias.

Lotan nasce ligado à lagoa dos Irerês, às águas, às lampreias, mas também a uma forma diferente de consciência. São muitos jogos de consciência nesse romance. Não são “vozes”, como se ensina nos cursos de escrita criativa. São almas vivas. Mesmo com tantas velhas novidades da literatura de fantasia e de duendes e monstros açucarados, e prometeus contemporâneos arremedados, mal remediados, ninguém recentemente na literatura brasileira conseguiu construir uma criatura assim. 

Foi esse jovem de 81 anos de idade quem melhor atingiu esse ponto para este leitor aqui.

O livro foi lançado no dia 2 de setembro. Foto Thiago Medeiros

Por isso, se eu tivesse de dizer em uma frase qual escritor encontrei, diria: alguém disposto a transformar o romance num instrumento de investigação da memória, do tempo e da própria possibilidade de narrar. E isso é particularmente forte num primeiro romance. Um romance sobre o mundo feito de restos de memória, história, ciência, cinema, imaginação, cultura popular, filosofia e humor. O resultado é uma literatura de excesso. Ela pede tempo ao leitor porque seu assunto mais profundo é justamente o tempo. E, no fim, essa talvez seja a melhor definição do escritor desse romance: alguém que escreve contra a aceleração do presente para nos fazer perceber o quanto uma cidade, uma vida, uma memória nunca cabem inteiramente no tempo em que acontecem.

Perguntas que as pessoas têm me feito sobre o novo romance de João Câmara

1.

“É um livro ‘difícil’? Não é extenso demais?”

Sim. O romance exige verdadeira confiança na duração. Você precisa aceitar que nem tudo será imediatamente compreendido. Certas coisas podem amadurecer ao longo das páginas. Nesse ponto, descobrimos se o escritor realmente construiu certo mundo ou apenas estendeu uma história. O primeiro caso João Câmara consegue. E nem é o mais bem feito de seu romance, mas ter escrito um romance capaz de convencer o leitor de que aquelas páginas não poderiam ser menores. Isso ele consegue.

2.

E mais esta: “Mas 512 páginas?”

Olha, depois de 500 páginas, o romancista precisa ter criado algo mais que uma trama: precisa ter criado uma vida. Personagens precisam mudar, o mundo precisa reagir a eles, e até o secundário, terciário, podem ganhar importância. Como escritor, vejo como o romance nos ensina uma coisa difícil: nem tudo precisa acontecer depressa. A grande prova para o romance longo é fazer o leitor esquecer que está lendo 500 páginas e se sentir vivendo dentro daquele mundo. Isso Câmara conseguiu, comigo.

3.

E, por último: “Ah, você não exagera dizendo que o romance é uma novidade?”

Não. No mercado editorial brasileiro, atual, esse romance traz certa novidade: a tradição. Paradoxal ou não, quem é leitor de verdade vai reconhecer ali traços esquecidos do romance moderno, esticados o quanto se pode por James Joyce, a familiaridade com uma âncora bem fincada.

Por vários motivos, e nenhum que o diminua, não chegará à imprensa, nem às listas, nem às redes. Não receberá resenha. Não pinçarão dele frases de efeito, não vencerá o Jabuti nem o Oceanos e nem se classificará fácil para nenhum desses concursos. Por quê? Porque exige leitura. E a mídia, com frequência, privilegia aquilo fácil de ser imediatamente explicado, resumido e consumido. A crítica ligeira prefere o livro que cabe em algumas linhas, que oferece uma tese pronta, uma etiqueta. Rondó da Lagoa dos Irerês pede outra coisa: tempo, entrega, atenção.

E talvez esteja aí uma de suas virtudes. João Câmara não escreveu para cortejar o leitor. Não simplifica seu universo para facilitar a entrada. Não diminui sua ambição para caber nas expectativas do mercado. Não está preocupado em oferecer ao chamado “hipócrita leitor” aquilo que ele espera receber. O livro segue sua própria necessidade interna, com vigor, excesso, liberdade e uma espécie de saudável indiferença diante das convenções que poderiam torná-lo mais “palatável”.

Por isso considero o romance de João Câmara um acontecimento na literatura contemporânea no Brasil. Não porque tenha sido consagrado por algum ranking, por uma campanha de mídia ou pelo consenso da crítica. Mas porque ele existe fora dessa ansiedade de ser imediatamente catalogado e amado. Os livros de fato importantes ou importunadores serão sempre aqueles que não perguntam o que precisam fazer para agradar.

Rondó da Lagoa dos Irerês

João Câmara

Topbooks

512 pp.

R$ 119,90

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