Por Pedro Cunha
Há imagens que não fazem alarde, mas permanecem. Ficam guardadas em silêncio por anos, quiçá décadas, até que alguém as reencontre e lhes devolva um novo sentido. Foi assim com uma fotografia doméstica encontrada por Karina Nobre durante a pesquisa de figurino para O Agente Secreto. Nela, um jovem de 19 anos veste uma camisa amarela da troça carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, sem imaginar que aquela peça, registrada em um dia como outro qualquer, atravessaria o tempo para ganhar o cinema, em uma cena de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e, depois, as ruas.
O jovem era Murilo Veloso de Morais, pai da pesquisadora. A imagem, feita antes do casamento, carrega uma história simples: a camisa foi comprada de um colega de trabalho que vendia peças da troça para arrecadar dinheiro. Nada de excepcional, e talvez justamente por isso tão potente. “Era uma escolha cotidiana, dessas sobre as quais a gente nem pensa muito. O que me emociona é perceber como algo tão pequeno pode ganhar outra dimensão com o tempo”, conta Karina em conversa com a Revista Araçá.
Recifense, formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco e com estudos de cinema em Buenos Aires, Karina construiu uma trajetória consistente nos bastidores do audiovisual brasileiro recente. Seu trabalho se apoia justamente nesse olhar atento para as imagens, não apenas as que estão nos arquivos oficiais, mas aquelas que sobrevivem nas casas, nas famílias, na memória íntima. Antes, ela já havia atuado na pesquisa de imagens de arquivo de Aquarius (2016) e Retratos Fantasmas (2023, este em parceria com Cleodon Coelho), ambos também assinados por Kleber, e de Animal Político (2015), de Tião. Como pesquisadora e assistente de direção, integrou ainda o documentário Estou Me Guardando pra Quando o Carnaval Chegar (2019), de Marcelo Gomes, vencedor do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2020.

Sua atuação também passa por outras frentes: realizou pesquisa de elenco de não-atores para Dormir de Olhos Abertos (2024), de Nele Wohlatz, e contribuiu para os departamentos de arte e figurino em produções de Sérgio Machado. Em todos esses trabalhos, há um traço comum: o interesse em como a imagem constrói sentido, seja ela capturada por uma câmera profissional ou guardada em um álbum de família.
Foi justamente esse olhar que conduziu a pesquisa para O Agente Secreto. Ao lado da figurinista Rita Azevedo, Karina percorreu mais de 40 casas no Recife, abrindo álbuns guardados por gerações, escutando histórias e cruzando essas memórias com acervos institucionais, como os da Fundação Joaquim Nabuco, além de coleções privadas. O objetivo era levantar referências visuais para o figurino. Mas o material encontrado acabou revelando muito mais.
“Quando você começa a olhar essas imagens, entende que não está lidando só com roupa. Está vendo maneiras de viver, de se colocar no mundo”, diz ela. “Tem um jeito de ocupar a cidade, de estar na rua, de se relacionar com o outro. Isso aparece nos detalhes”.
Mas há também um aspecto menos visível, que atravessa toda a pesquisa: o encontro humano. “O que mais me surpreendeu foi a generosidade. As pessoas mostram a intimidade, contam histórias e fazem isso sem esperar nada em troca. A gente vive cercado de tanta notícia ruim que acaba esquecendo desse lado mais solidário”, expõe a pesquisadora.
Durante quatro semanas, o material coletado foi organizado em grandes painéis visuais, divididos por personagens e locações. Esses painéis, revela a pesquisadora, orientavam o trabalho do elenco, influenciando não apenas o figurino, mas também gestos e comportamentos.
A fotografia do pai de Karina não chegou a integrar o painel final do filme, mas permaneceu como uma espécie de referência afetiva. Foi o suficiente para que Rita Azevedo, ao pensar em uma peça para uma cena mais intimista, decidisse recriar a camisa. No set, ela ganhou vida com o personagem Marcelo, o protagonista interpretado por Wagner Moura no longa que recebeu quatro indicações ao Oscar e que já ganhou mais de 100 prêmios ao redor do mundo.
“Quando a gente vê aquilo no ator, tudo se encaixa. Não é só figurino, é a construção do personagem”, acentua Karina. Esse cuidado dialoga com a própria proposta do filme, que trata o passado não como pano de fundo, mas como matéria viva. Fitas cassete, jornais impressos, cinemas antigos. Tudo aparece como vestígio de um tempo que ainda resiste.
Essa atenção aos detalhes se estende também à cultura popular. Logo no início do filme, o público é situado em Pernambuco em meio ao carnaval: a presença da La Ursa, figura tradicional que percorre as ruas pedindo dinheiro, surge como marca imediata de território. Em outro momento, foliões vestidos de garçons cruzam a cena, evocando uma tradição local: trabalhadores que, depois da folia, saem para brincar na Quarta-feira de Cinzas. São pequenos sinais, discretos, mas que ajudam a construir uma camada de reconhecimento para quem vê.
Talvez por isso a camisa tenha escapado da tela. Desde a estreia internacional do longa, em 18 de maio de 2025, no Festival de Cannes, a peça começou a circular com força fora do cinema. Virou moda, apareceu em blocos, festas, redes sociais. “É curioso ver uma imagem tão íntima ganhar essa dimensão pública. Mas acho que existe um reconhecimento ali. As pessoas se veem nisso”, reflete Karina.
Outro ponto que permeia essa investigação é o futuro dessas imagens. Karina chama atenção para o desaparecimento dos álbuns físicos. “A gente está perdendo isso. As fotos agora ficam na nuvem, nas redes sociais e a natureza dessas imagens é outra. Uma coisa é a foto feita para guardar, outra é a foto feita para publicar”, reflete. “Esses álbuns são documentos históricos. Têm um valor enorme. E eu fico pensando: 'Como será daqui a 30 anos? Onde vamos encontrar essas imagens?’”, indaga.






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