Conto inédito de Renata Santana

4 jun 2026 | 0 comentários

Foto: Danilo Souto Maior

A casa das horas

Adoro isso CLOC CLOC sempre acho que o som das pedras de gelo no copo de whisky parece braceletes movendo-se no vai e vem da lonjura dos braços. E mais, o salto, meu salto quando risca e claudica no chão da noite os meus passos CLOC TOCLOC CLOC…

falava isso quando, Clock house, eu li. 

Um susto. O nome piscava na avenida do outro lado do bar. Do alto, assumia a forma de uma nuvem que só muda quando o dia vem. Piscava clock house no céu, como o chamado de um herói, cavaleiro das trevas, olho pro alto e o nome não dorme, desperta, clock

E eu CLOC CLOC CLOC giro o copo e as pedras badalam as horas infernais. Olho novamente pro céu, clock. Toca a minha canção favorita. Mas não me mexo. As pessoas se dispersam e me deixam. Olho da janela: clock house. Giro o copo novamente, mas agora as pedras derreteram no choro das coisas que desmoronaram. 

Estou firme. Volto pra casa lembrando que, há muitos anos, numa noite como esta, estava no shopping com o pequeno Mateus. Andava cansada da maternidade e das humilhações públicas. Do fraldário e daquelas mães malucas. Andava cansada de Mateus. De sua cara boba, seu corpo mole. Da crueldade de sua ternura. 

Depois de mais um escândalo na praça de alimentação, da festa com as batatas e do ketchup sangrando em minha roupa, nós dois entramos numa loja. Eu compraria uma blusa decente, e, aproveitando, uns pares de meias novos para ele. 

Porque não queria meias e sim brinquedos, Mateus deu um escândalo ainda maior dentro da loja de roupas. Arrastou-se pelo chão, sacudiu os braços como se nadasse num campeonato de natação. Derrubou araras, puxou cabides, chutou o joelho de um manequim. Eu me sentei contemplativa e fiquei. As outras pessoas olhavam para mim. Eu olhava para Mateus. E ao meu olhar, ele ia ficando cada vez menor e menor e menor. Tanto que por um instante desapareceu. 

Foi dentro desse pequeno instante de seu sumiço que senti uma alegria, uma leveza, sei lá, suspirei. Mas no instante seguinte lá estava Mateus arriado no chão, a sua presença pesando outra vez a minha presença. 

Me levantei e fui em sua direção. Seu corpo pequeno estava jogado no piso da loja. Sua boca viscosa de baba e catarro grunhia um choro cansado, mas insistente. Aumentou o tom quando percebeu que eu me aproximava. Me abaixei gentilmente.

Como uma santa que tarda, mas paga suas promessas, eu disse a ele que, dessa vez, eu iria mesmo embora, eu iria sumir para nunca mais voltar. Lembro que ele me olhou com aqueles olhos do pai, os olhos moles do choro falso, e permaneceu imóvel, sem dar fé em minha paga.

Hoje, quando piscou o letreiro do outro lado da rua eu lembrei, súbito, eu lembrei do pequeno Mateus e que tudo já fazia 30 anos. Pareceu-me um aviso, talvez, quem sabe, já era hora de buscá-lo. 

No dia seguinte, ainda com a ressaca do whisky, peguei o carro e fui ao shopping. Refiz o caminho, entrei na loja C&A, fui até as araras infanto-juvenis da Clock House. Mateus? Dei mais uma volta, passei pelos espelhos e ri, satisfeita com minha mocidade, pois era incrível que eu ainda estivesse bonita e jovem, a roupa impecável, a bolsa de pelica sem nenhum vinco. Mateus? 

Ouvi um barulho. Me aproximei. Por entre as araras de roupa, surgiu vacilante um corpo de homem grande e nu, com os olhos opacos como os manequins de fim de estação. O homem me olhou e sorriu, barbudo e sem dentes. Era Mateus. 

Aquele corpo pálido e grande me estendeu a mão e eu a peguei. Talvez, pelo seu alheamento e mansidão, já estivesse na hora de voltar pra casa. Mateus não dizia palavra. Apenas me seguia quieto como um animal de circo. Deitou no banco traseiro do carro, e dormiu. 

Antes de partirmos, ainda fiquei um tempo olhando para ele. Até que estava saudável, concluí. Aliás, talvez, estivesse só um pouco magrinho. Isso. Magrinho. 

Terrivelmente magrinho.  


Renata Santana é escritora, atriz e recitadora. Publicou A mulher do tempo (Cepe Editora, 2021, VII Prêmio Pernambuco de Literatura), Eu me lembro e Na terceira margem do agora (Castanha Mecânica, 2019) Leviana da Savana (Primata-SP, 2020) O amor na 5ª série aos 30 (Macondo, 2021). É bibliotecária, jornalista, pesquisadora, doutoranda em Ciência da Informação pela UFPE, onde pesquisa memória e alteridade.

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