Da arte de bater uma pelada em super-8

11 jun 2026 | 0 comentários

Juliana Cuentro com a camisa do Santa Cruz. Foto: Acervo pessoal

Por Paulo Cunha

Anote no seu caderninho, camarada: uma das melhores coisas da vida, no meio da década de 1970, era acordar às 10 da manhã num sábado de folga, verão explodindo de luz e de azul, vestir um calção e uma camiseta, pegar uma bola, passar na casa do amigo, tomar um ônibus e descer num local menos frequentado da praia de Boa Viagem. Ali, era só chamar outros dois ou quatro ou seis desocupados e jogar uma partida de futebol nas areias escaldantes. Raramente era um desafio medido pelo tempo, já que ninguém tinha mesmo relógio (e, se tinha, não levava para a praia); às vezes a partida durava até um dos “times" atingir um escore qualquer, fazer cinco gols antes do outro, por exemplo; outras vezes, jogávamos até suar muito, cansar. A sequência era correr para o mar sem tubarões (eles vieram muito depois, com o desastre ecológico que foi a construção de Suape, cuja operação começou apenas em 1983) e ficar ali, dentro da água, conversando naquela morna preguiça. 

Naquele tempo, íamos à praia por três razões essenciais: paquerar as garotas que passavam devagar, bater uma pelada e tomar banho de mar. Depois, ainda molhados e melados de areia, tomar o ônibus da volta. Antes de chegar em casa, por volta das 16 horas, e se desse sorte com a tabela do campeonato pernambucano, parar na Ilha do Retiro e assistir a um Sport X Ferroviário, que fatalmente terminaria com um placar de 6 a 0 para a gloriosa esquadra rubro-negra. Era exatamente assim: a ditadura comendo no centro, o sol bronzeando a pele das meninas, o mar sem tubarões, o futebol como alegria barata e genuína.

Foi justamente numa dessas viagens de ônibus, saindo de Boa Viagem em direção aos bairros da Torre e Parnamirim, onde morávamos, por volta de 1977, que eu e Geneton Moraes Neto, molhados e melados de areia, começamos a conversar sobre como era injusto que uma parte da esquerda brasileira criticasse com tanta virulência o futebol, como se fosse uma atividade alienada, um negócio de direita. Havia naquele momento uma aversão latente contra times, jogadores e torcedores, motivada sobretudo pelo aproveitamento populista que o execrável ditador Emílio Garrastazu Médici tinha feito do futebol em 1969 e 1970, com aquelas fotografias ridículas, fingindo ouvir a transmissão de jogos através de um radinho de pilhas. Na verdade, a ditadura tinha dado um jeito de demitir João Saldanha, que era militante comunista e fora o verdadeiro responsável (nunca Zagallo) por armar a melhor seleção brasileira de todos os tempos. E os milicos ainda se aproveitaram do talento daqueles craques para esconder o sangue que escorria dos porões onde a tigrada torturava qualquer pessoa que discordasse do regime.

Sabíamos disso tudo. Para piorar, em novembro daquele mesmo ano de 1977, numa entrevista à Folha de S. Paulo, Pelé largou a bomba nuclear que o marcaria para sempre: "O povo brasileiro ainda não está em condições de votar por falta de prática, por falta de educação e ainda mais porque se vota, em geral, mais por amizade nos candidatos”. Uma imbecilidade, é claro. No rodízio dos generais, vivíamos o período do ditador Ernesto Geisel, sucessor de Médici, e eleições para presidente e para governadores continuavam indiretas. Os grupos armados que lutaram contra a ditadura estavam todos dizimados — seus militantes mortos, presos ou exilados. A oposição legal ao regime era amordaçada e — salvo honrosas excessões — medrosa. A frase de Pelé ganhou posteriormente uma versão curta (e falsa) ainda mais violenta: “O brasileiro não sabe votar”.

[Parênteses para registro: eu e Geneton não nos conhecíamos e tínhamos exatos 14 anos quando assistimos extasiados à Copa do México, em 1970, na primeira transmissão ao vivo do evento pela televisão. O escrete de ouro, como diziam os comentaristas de rádio, era formado por Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Sempre bom lembrar, para quem não era nascido ou para quem esqueceu: nesse elenco havia cinco jogadores que, nos seus times de origem, usavam a camisa 10. Na Copa, a camisa foi usada apenas por Pelé. Ou seja: o Brasil era uma potência de ataque invencível. Um futebol belo, ofensivo, paradoxalmente nascido num país ainda muito pobre, desequilibrado regionalmente, atolado numa ditadura medonha, mas que brilhava pelo talento de jogadores, verdadeiros bailarinos, muitos deles nascidos pobres, pretos e pardos. Para nós, tratava-se do povo brasileiro vestido com a camisa da seleção canarinha, exercendo o seu direito de ser feliz e vitorioso.]

Apesar da bobagem de Pelé, de termos consciência do aparelhamento do futebol praticado pelos militares, guardamos por um tempo a ideia de que não era correto culpar o futebol pelas desgraças indiscutíveis da ditadura, gestada e mantida não por torcedores ou jogadores, mas por empresários, políticos corruptos de direita, militares fascistas e pelos Estados Unidos da América. Nossa ideia de contestar a condenação do futebol voltava periodicamente, mesmo porque eu encontrava Geneton Moraes Neto todos os dias, na sucursal do Recife do jornal O Estado de S. Paulo, onde trabalhávamos. O Estadão no Recife era uma pequena redação, dez ou doze jornalistas, um fotógrafo, a teletipista (que enviava nossos textos para São Paulo, via Telex), um administrador, todos de esquerda, ou no mínimo opositores ao regime militar, e comandados por Carlos Garcia — que aliás havia sido preso e brutalmente torturado pelo Exército brasileiro em março de 1974, às vésperas da posse do general Ernesto Geisel. Não havia qualquer razão para a prisão, Garcia era um democrata, um liberal de esquerda. Mesmo assim, foi submetido a sessões de choques, pau de arara e simulação de fuzilamento. 

O clima permanecia pesado, embora já fosse outro no final da década. A crise econômica que explodiu em 1973, marcando o fim do tal “milagre econômico” no Brasil, aos poucos produziu inflação, mais arrocho salarial, desigualdade e estava minando a base de apoio da ditadura. O governo Geisel iniciou uma abertura (“lenta, gradual e segura”). O Estadão, que nunca deixou de ser um jornal conservador, paulistocêntrico, demonstrava cada vez mais cansaço com a ditadura, que apoiara em 1964. A orientação editorial recente, que também seguíamos na sucursal do Recife, era cobrir todos os acontecimentos em defesa da abertura democrática. Quer dizer: nosso trabalho, como repórteres, estava energizado — era bom sentir que o que escrevíamos ia na boa direção, ajudava (mesmo modestamente) a tirar o Brasil do atoleiro fascista. Havia preocupação com os retrocessos, mas também um pouco de esperança na sucursal.

Geneton Moraes Neto e Paulo Cunha nos anos 1970. Foto: Acervo Pessoal

Geneton chegava todos os dias ao trabalho e datilografava uma frase de efeito, que colava com durex na parte de trás de sua máquina de escrever, de modo a que ficasse legível para quem vinha falar alguma coisa com ele. Lembro de uma delas: “O Brasil é um equívoco que começou com o desvio das caravelas”. Como outro grande amigo, Amin Stepple (que, diga-se de passagem, não gostava de jogar bola), Geneton era um mestre da fórmula curta e certeira. Sentávamos lado a lado na redação, e certo dia decidimos que chegara a hora de retomar a discussão sobre o preconceito contra o futebol. Começamos então a escrever o roteiro para um curta em super-8 que explicitasse nossas ideias. Não seria um roteiro narrativo, já que não havia uma história para contar, com início, meio e fim. Era muito mais um discurso, qual um berro, proferido por alguém que desejasse dizer algo enfaticamente. Até aquela época, o cinema brasileiro não ligava muito para o futebol, mas tinha produzido alguns longas geniais, como Garrincha, Alegria do Povo (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, Subterrâneos do Futebol (1965), de Maurice Capovilla (com produção de Vladimir Herzog!) e Isto é Pelé (1974), de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto. Nós não tínhamos nem dinheiro nem vontade de fazer algo parecido com esses longas. Buscávamos um panfleto audiovisual.

Como o curta seria veemente, provocador, inventamos logo o subtítulo: “Um filme panfletário, a favor do futebol”. Só depois apareceu o título: Esses Onze Aí, tirado da canção "Reis da Bola", do LP Vamos pro Mundo, lançado em 1974 pelos Novos Baianos. A música fazia parte do nosso repertório afetivo, ouvíamos sem parar, e fazia referência a Jairzinho, aos jogadores de rua, à "bola de meia”  — imagino que hoje quase ninguém mais saiba que os peladeiros brasileiros usavam às vezes bolas feitas com meias velhas, enroladas umas nas outras, brinquedo de crianças que não tinham dinheiro para comprar uma bola de couro. A letra da canção, de Luis Galvão, combinava perfeitamente com a música de Moraes Moreia e Pepeu Gomes:

Esses onze aí
Esse onze aí
Esses onze aí
Esse onze aí

Vem do jogo de rua
Da bola de meia
É anos e anos de futebol
Correndo na veia

Sabe o que é
Fazer que vai por aqui
Como uma flecha passou

É o drible, é Jair
É o drible, é Jair

Aí é pulo, abraço e beijo, é todo mundo louco
É água, é água, é água, é água de coco

É fé, é raça, é crânio, é tudo mundo rouco
É água, é água, é água, é água de coco

Brasil brincou, é bola no filó
Brasil brincou, é bola no filó
São os reis da bola
Garantindo a alegria
Pro seu povo

Sabe o que é
Fazer que vai por aqui
Como uma flecha passou

É o drible é Jair
É o drible é Jair

Aí é pulo, abraço é beijo, é todo mundo louco
É água, é água, é água, é água de coco

É fé, é raça, é crânio, é tudo mundo rouco
É água, é água, é água, é água de coco

E tudo isso porque somos da terra do Rei Pelé

De alguma forma, tudo o que queríamos dizer no curta estava presente no suingue dos Novos Baianos, grandes peladeiros naqueles anos. A trilha sonora foi crescendo. Resolvemos enfrentar a questão de Pelé e por isso usar a canção "Two Naira Fifty Cobo", de Caetano Veloso. É que numa viagem à África, Caetano percebera entre a população local a potência imaginária internacional do jogador e cantou no disco Bicho, que acabara de lançar: 

No meu coração da mata gritou Pelé, Pelé
Faz força com o pé na África
O certo é ser gente linda e dançar, dançar, dançar
O certo é fazendo música
A força vem dessa pedra que canta Itapoã
Fala tupi, fala iorubá
É lindo vê-lo bailando ele é tão pierrô, pierrô
Ali no meio da rua, lá.

Soou para nós como a redenção de Pelé, como uma espécie de revisão crítica — tão impactante quanto a que Glauber Rocha havia feito do cinema brasileiro. Apareceu no nosso horizonte essa “esquize”, ou clivagem, entre Edson Arantes do Nascimento, que falava bobagens nas entrevistas, e Pelé, o negro que dançava nos estádios, fazendo a torcida delirar. Pareceu óbvio que era algo que devíamos incorporar ao filme.

A partir daí a coisa foi evoluindo naturalmente. Escrevíamos as frases panfletárias do roteiro, Geneton convidou nossa colega jornalista Juliana Cuentro para ser a atriz que diria nosso texto, escolhemos as locações. Talvez a memória esteja me traindo, mas acho que fui eu quem, caminhando um dia na avenida Conde da Boa Vista, vi na vitrine de uma loja de materiais fotográficos um pequeno rolo em super-8 com imagens filmadas na Copa de 1970. Antes das fitas de vídeo VHS, antes dos DVDs, as pessoas compravam esses filminhos para projetar em casa. Comprei na hora. Era barato e perfeito para ilustrar parte do nosso discurso.

Vieram depois as filmagens. Chamamos Lima, um cinegrafista que ajudou a construir muitos dos curtas do ciclo do Super-8 no Recife entre 1973 e 1983, para filmar as partes sonoras, nas quais Juliana atuava e dizia coisas como “as ditaduras se acabam, a camisa 10 fica!” Ou “a bola nunca foi o desatino brasileiro. O muro que divide a geral da arquibancada é que é o X do problema. O resto é Gilberto Freyre”. Havia também entrevistas curtas que fizemos com o treinador Zagallo e com os jogadores Palhinha, Nunes e Givanildo. Eu e Geneton tínhamos nossas Canon — e saímos captando imagens de peladas nas praias, ao longo da avenida Agamenon Magalhães. Conseguimos com o jornalista esportivo Paulo Moraes Aragão, nosso colega na sucursal do Estadão, passe-livre para entrar no campo durante um clássico Santa Cruz X Sport e fomos juntos filmar a partida — para nosso desespero, o Sport perdeu, mas mantivemos as imagens do gol e da alegria da torcida tricolor no nosso curta. 

Para coroar nossa produção, houve uma ajuda gloriosa do destino. Certo dia, Geneton vai visitar a casa de amigos e nota, no quintal, uma criança que brinca com uma bola de futebol e uma metralhadora de plástico. Filma na hora a cena de encerramento de Esses Onze Aí: quase estático, como se estivesse na posição de sentido, com a metralhadora de plástico na mão, o pequeno guerrilheiro utópico se aproxima da bola e, em vez de chutar, dá um soco nela. No momento exato do murro na bola, colocamos na trilha um solo de guitarra radical de Jimi Hendrix. 

A arma na mão e a bola no pé: cena de encerramento de Esses onze aí. Foto: Acervo pessoal

Terminamos, montamos e inscrevemos no Festival de Cinema Super-8 do Recife. Quando o filme foi projetado, no auditório lotado do Centro Interescolar Luiz Delgado (não vou deixar de salientar a ironia geográfica: quase ao lado das dependências do DOI-CODI no Recife, ali mesmo onde Carlos Garcia havia sido torturado quatro anos antes), a plateia enlouqueceu. Palmas, ovações, assobios, gritos de protesto. Logo depois da exibição, uma espectadora se aproximou nervosa e nos disse: “O filme de vocês é fascista! Fascista, entenderam?” —  e saiu bufando. Talvez tenha incomodado muito a frase que Juliana Cuentro dizia, com o dedo indicador em riste: “Esse filme é dedicado a Pelé. Isso mesmo: Pelé, o gênio da raça!”. Era demais — uma paráfrase de Glauber Rocha, num dos textos mais polêmicos que o baiano escreveu, afirmando que o general Golbery do Couto e Silva era um ”gênio da raça”…

Mas a enorme maioria adorou, entendeu. Percebeu o intuito polêmico e panfletário do filme e incorporou a provocação como parte do jogo. Poucos dias depois, a crítica de cinema de O Estado de S. Paulo, Pola Vartuck, escreveu uma resenha classificando o curta de “polêmico”. É bom dizer: não a conhecíamos nem sabíamos que ela viera ao Recife cobrir o festival. O curta levou dois prêmios: o de Melhor Filme do Festival e o de Melhor Filme Pernambucano (este último com direito a uma boa grana oferecida pelo Diario de Pernambuco).

Ainda restariam sete anos de luta para recuperarmos a nossa democracia. Como todos sabemos, deu e continua dando um trabalho enorme preservá-la. A política brasileira continua flertando com a catástrofe. Recentemente, emergiu a nova (será mesmo nova?) extrema direita que, de novo, tenta aparelhar o futebol brasileiro, dessa vez num ambiente muito diverso: jogadores bilionários, alguns insuportáveis como figuras humanas, BETs viciando e empobrecendo torcedores e mandando e desmandando nas transmissões esportivas, a velha cartolagem atuando com toda força. Triste retrocesso — ou triste retorno. Resultado: não frequento mais os estádios e corro quando vejo uma camisa amarela da seleção brasileira. Não quero ser confundido com um boi velho. Pensando bem, talvez esteja na hora de alguém fazer um novo Esses Onze Aí.


Paulo Cunha é jornalista e cineasta.

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