Por Thiago Tião
Até quem não entende quase nada de futebol, como é o meu caso, conhece essa ansiedade estranha que aparece quando a Seleção Brasileira entra em campo. Não é só sobre escalação, tática ou desempenho. É sobre um país inteiro que, por alguns minutos, volta a se reconhecer diante da mesma camisa. No ano em que o Brasil volta a olhar para a Copa de 2026, a Netflix devolve o Tri de 1970 ao país, e a série acerta ao lembrar que aquele time nunca pertenceu só ao futebol. Do Azteca ao Recife, a memória tem sotaque.
No dia 21 de junho de 1970, o Recife parou de um jeito que a televisão sozinha não explica. Quem tinha aparelho preto e branco juntava a vizinhança na sala; quem não tinha encostava o ouvido no rádio, fosse na calçada, no balcão do bar, na soleira de casa. A cor daquela tarde no Estádio Azteca ainda não fazia parte da experiência doméstica brasileira. Chegou pela voz do locutor e pelo grito que pulava de quintal em quintal quando Carlos Alberto empurrou o quarto gol contra a Itália. O Tri foi visto. Mas foi, antes de tudo, ouvido. E ouvido em companhia.
É essa memória, coletiva, barulhenta, de rua, que “Brasil 70: A Saga do Tri” tem a inteligência de não transformar em vitrine. A minissérie da Netflix, dirigida por Paulo e Pedro Morelli ao lado de Quico Meirelles, chegou em um momento em que o país volta a medir sua relação com a camisa da seleção. A tarefa era ingrata: contar uma história cujo final o Brasil inteiro decorou. A série resolve o problema pelo avesso. Gasta menos tempo nos gols e mais nos bastidores. Rodrigo Santoro vive João Saldanha, o jornalista comunista que armou o time e foi afastado do comando às vésperas do Mundial; Bruno Mazzeo é Zagallo, que herdou a seleção e o tamanho de um país; e Pelé, no corpo de Lucas Agrícola, aparece menos como monumento e mais como o homem que cogitou largar tudo depois da humilhação de 1966.

A série também encontra seus melhores momentos longe das quatro linhas. Em vez de se apoiar apenas nos lances que todo brasileiro conhece de memória, dedica tempo às relações entre jogadores, comissão técnica e dirigentes, às tensões da preparação e aos conflitos de um grupo que carregava sobre os ombros as expectativas de um país inteiro. O elenco ajuda a aproximar personagens frequentemente tratados como figuras intocáveis da história do futebol. É importante lembrar, porém, que a produção não tem compromisso com uma reconstituição documental dos acontecimentos. Conversas privadas, pensamentos dos personagens e parte das situações mostradas em cena são recriações construídas a partir de personagens reais e fatos. O resultado funciona melhor quando compreendido como uma interpretação dramatizada daquele período, capaz de preservar os acontecimentos centrais sem abrir mão da liberdade narrativa própria da ficção.
O acerto está em encarar a contradição que o Brasil oficial preferia esconder. Aquele futebol generoso, ofensivo, de toque curto e invenção coletiva era a vitrine de um regime que prendia, censurava e torturava. A ditadura entendeu rápido o que tinha em mãos: pendurou o Tri na propaganda, fez do “Pra frente, Brasil!” trilha de Estado e tentou vestir o amarelo como se fosse fardamento. A seleção que encantava o planeta dividia o noticiário com um país que mandava calar. A série não pede desculpa por mostrar as duas coisas no mesmo quadro, e é aí que ela cresce.
Visto do Recife, o quadro ganha outro contorno. Em 1970, enquanto o time jogava no México, a cidade fervia de uma vida que o medo não conseguiu apagar. Foi naquele mesmo ano que Ariano Suassuna lançou o Movimento Armorial, procurando no maracatu, no frevo e na literatura de cordel uma forma erudita de ser popular. Os teatros não fecharam, os jornais driblavam a tesoura da censura, o frevo continuou rachando o asfalto no carnaval e os botecos seguiram sendo assembleia. Sob vigilância, Pernambuco insistia em se encontrar. O futebol era parte disso tudo: não o espetáculo distante da TV, mas a Ilha do Retiro lotada, o Arruda em festa, a resenha de segunda-feira que valia tanto quanto a partida de domingo.
Porque no Recife o futebol nunca foi só jogo. Era pertencimento de bairro, rixa antiga entre Sport, Náutico e Santa Cruz, clássicos enchendo a tarde de fé. E era, sobretudo, escuta. A Rádio Clube e a Rádio Jornal organizavam o imaginário esportivo de quem nunca pisaria num estádio do outro lado do mundo. O locutor narrava, o comentarista provocava e a vizinhança inteira virava torcida em volta de um aparelho. A Copa de 1970 entrou para a história como marco da transmissão ao vivo, mas no Nordeste foi o rádio que costurou a emoção fio a fio. Quem viveu não se lembra apenas de uma tela: lembra-se de uma voz e do silêncio tenso antes do gol.
O audiovisual brasileiro recente reaprendeu a olhar para a ditadura sem moldura heroica. “Brasil 70” se inscreve nesse movimento ao tratar o Tri como episódio de uma briga maior. Essa briga é pelo significado das coisas. A camisa amarela, o hino, a bandeira, a própria ideia de povo: tudo já foi sequestrado pelo poder e devolvido, na marra, pela população que pinta a rua e chora no fim do jogo. A série toca nesse nervo quando faz Saldanha cravar que o verde e amarelo, no fim das contas, é do torcedor, não de quem o usa para defender Estado acima de gente. Em 2026, com o amarelo novamente no centro da disputa política, a frase soa como recado. E Pernambuco, terra que sabe de cor o que é ter sua cultura tratada como folclore inofensivo enquanto resiste de verdade, conhece o tamanho dessa queda de braço.
Talvez seja esse o melhor motivo para assistir à série. O Tri de 1970 não serve para nos deixar saudosos de um Brasil que nunca existiu inteiro. Serve para lembrar que torcer, no fundo, sempre foi também disputar: o placar, a memória e o direito de dizer de quem é a camisa. Em 1970, o Recife respondeu a essa pergunta com o rádio ligado e a calçada cheia. Mais de meio século depois, a resposta continua de pé. O amarelo é de quem grita, não de quem manda.





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