Por Cleodon Coelho
A cantora e compositora Anastácia nasceu em uma época em que as mulheres ainda estavam destinadas a trabalhos domésticos. Não fosse o seu desejo de ir à luta, hoje a música popular brasileira não teria os versos "Eu só quero um amor, que acabe o meu sofrer / Um xodó pra mim, do meu jeito assim, que alegre o meu viver". Lançada em 1973, primeiro por Marinês e logo depois por Gilberto Gil, a canção "Eu Só Quero um Xodó" virou uma das mais conhecidas composições nacionais. Elba Ramalho, Ivete Sangalo e Paula Toller estão entre as inúmeras vozes que já quiseram esse xodó. E essa história nasceu em São Paulo, na cozinha do apartamento em que ela morava com Dominguinhos, seu marido por mais de 10 anos. "Eu estava fritando um peixe e ele tocando sanfona na sala. Quando ouvi uma determinada melodia, imediatamente me veio a letra na cabeça. Pedi para ele tocar novamente, cantei as duas estrofes que tinha criado e encaixou certinho", revela, com a tranquilidade que é sua marca registrada.

Anastácia não se importa de revelar a idade. Está com 86 anos, cheia de saúde, gravando com gente da nova geração que a reverencia, a exemplo da celebrada Juliana Linhares. A cantora potiguar a convidou para um feat em seu novo álbum na faixa "Vida Virada", composta em parceria com Josyara e Elisio Freitas, cuja letra parece saída da caneta da veterana: "Quero que a noite me veja / E acenda a fogueira no canto que dói". A pernambucana também já dividiu o palco com a paulista Mariana Aydar e a paraense Lia Sophia, só para citar algumas. "Essas meninas são muito carinhosas comigo. Me enchem de carinho", comenta, sem esconder a modéstia.
A cantora acaba de receber o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Pernambuco, honraria concedida em reconhecimento à sua trajetória na música e à atuação como defensora da memória cultural do Nordeste. Durante a cerimônia, conduzida pelo reitor Alfredo Gomes, a artista interpretou a canção "Tenho Sede", outro clássico feito em parceria com Dominguinhos. "É um dia importante para mim, mas também para a arte da nossa região, que é uma coisa imprescindível, e para o nosso povo, que cada vez mais valoriza os talentos que temos", afirma. A concessão do título foi proposta pelo Programa de Pós-Graduação em Música e aprovada pelo Conselho Universitário da UFPE. O parecer que embasou a homenagem destaca não apenas a magnitude de sua produção, mas também sua atuação como escritora e cronista. "É muito bonito ter esse reconhecimento em vida", festeja ela, cuja obra foi indicada ao Grammy Latino, em 2018.

Essa trajetória vitoriosa começou nos anos 1950, quando ela estava com 15 anos e, durante um momento de farra, compôs a sua primeira música. “Eu ainda nem sabia o que estava fazendo, mas fiz e gostei”, lembra Anastácia, que já na década seguinte ganhou o título de Rainha do Forró. “Me deram esse apelido quando cheguei a São Paulo. Na época, eu fazia muitos shows em circos, e o locutor me anunciou como Rainha do Forró. Até porque eu era a única mulher cantando forró ali naquele palco”, minimiza, fazendo questão de afirmar que não tem qualquer vaidade com o status. “Eu não me sinto rainha de coisa nenhuma. Hoje eu tenho esse título na verdade porque eu sou a ‘mais velhinha do forró’, então eu curto”.
Mas não é só de forró que vive Anastácia. Nascida Lucinete Ferreira, ela - que começou na Rádio Jornal do Commercio imitando Celly Campello - teve sua primeira música gravada pelo sambista Noite Ilustrada. "Foi no disco 'Depois do Carnaval'. Era uma canção chamada 'Conselho de Amigo', com uma orquestração linda, um trabalho de alto nível", conta ela. Ao longo dos anos, outras (inúmeras) composições foram registradas por nomes que vão da popularíssima Cláudia Barroso até Gal Costa, com "De Amor Eu Morrerei", e Nana Caymmi, que imortalizou "Contrato de Separação". É ao lado de Dominguinhos, no entanto, que vem a fatia mais conhecida de sua obra. Afinal, quem não ouviu "Tenho Sede", "Sanfona Sentida" ou "Forró do Zé Lagoa" não conhece nada de música.





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