O presságio das 3h13
Toda cidade tem uma hora em que as coisas erradas acontecem. Em Recife é às 3h13 da madrugada. Não é lenda. É estatística. 3h13. O horário em que o plantão do maior hospital de emergência, o da Restauração lota. O horário em que a energia pisca no viaduto. O horário em que o telefone toca e ninguém fala nada do outro lado.
Eu descobri porque trabalho em jornal, no turno da noite. Na terceira semana, percebi o padrão nas ocorrências policiais: Acidente. 3h13. Assalto. 3h13. Suicídio. 3h13. Entre uma pauta e outra, ao invés de cochilar comecei a ficar acordada propositadamente para ver. Na segunda noite, nada. Na terceira, o gato.
Ele estava sentado no meio da rua, bem em frente à redação. Cinza, magro, com uma listra branca cortando o olho esquerdo como uma cicatriz. Não se mexeu quando os carros passaram. Os carros que se desviavam dele. Sozinhos.
Olhei no relógio: passavam alguns segundos das 3h12. O gato me olhou. E sorriu. Só vi o sorriso. O resto do corpo ainda estava lá, mas o sorriso já flutuava meio metro acima do chão. 3h13. Um estalo e um flash de luz. O poste escureceu. Dois quarteirões depois, o barulho. Freio. Gritos. Parecia metal. Corri. Era um carro batido. Ninguém grave. Só um susto. Quando voltei, o gato tinha sumido. Só ficou uma pegada na poça. Isso foi em um domingo.
Na madrugada de segunda-feira para terça-feira estava decidida a nem cochilar entre as pautas. Apaguei. Acordei sobressaltada com o telefone da bancada ecoando estridente no silêncio noturno. Era uma fonte da Delegacia de Plantão de Santo Amaro. Um feminicídio. O homem, disse, havia se vingado da separação, degolando a ex-companheira. Foi preso em flagrante. Acordei o fotógrafo e o motorista. Quando chegamos, a delegada fazia a escuta do suspeito. Aguardamos do lado de fora da sala. O escrivão, que havia ligado para a redação, nos disse para ficar por ali. Daria para falar com o suspeito.
A porta abriu e fui rápida:
— O senhor acabou com a vida de sua ex-companheira por não suportar ser deixado?
Quando o encarei, vi o gato sorrindo.
— Quer morrer também? — respondeu. O relógio marcava 3h13.
No outro dia, às 3h12 eu já estava na janela. Ele apareceu às 3h13 em ponto. No mesmo lugar.
— De novo você?
O sorriso cresceu.
— De novo você — respondeu, sem abrir a boca.
Na noite seguinte, estava de folga e pretendia dormir após uma semana de trabalho pela madrugada. 3h13. Acordei no susto, como se algo pesado tivesse caído. Levantei o mais depressa que pude. Atordoada, caminhei em direção à sala. Poucos passos fora do quarto e tropecei em algo. A luz da lua entrava pela janela da sala e pude enxergar o pedaço de tronco. Como aquilo havia parado ali? Até então não sei. Me abaixei para olhar. Só vi o sorriso iluminado. Ele, o gato, sorrindo, para meu desespero.
3h13. Dessa vez não teve acidente. Teve silêncio. Um silêncio tão pesado que doeu no ouvido. E no fim da rua, uma mulher atravessou sozinha. De camisola branca. Descalça.
Olhava para o céu como se esperasse algo cair. Parecia um fantasma. A cena era de filme de terror. Desci para saber o que havia ocorrido.
Quando voltei, o gato estava na minha mesa. Em cima das anotações do dia do meu caderno de pauta. Com a pata, ele tinha arranhado três palavras em letras garrafais: NÃO OLHE PARA TRÁS. Superstição de gato. Ri, nervosa.
3h13 da noite seguinte eu olhei. E vi. Na rua vazia, atrás de mim, refletido no vidro da janela… Tinha outra pessoa. Não era eu. Pensando melhor, era eu, mas com os olhos pretos. E sorrindo igual ao gato. Gritei. A luz piscou. Quando voltou, só tinha eu.
Passei uma semana sem dormir. Pesquisei. Descobri que 3h13 é chamado de "hora do véu fino". Hora em que a linha entre o que é e o que poderia ser fica transparente. Hora em que as coisas que ainda não aconteceram vêm espiar. E o gato? Ele não causa. Ele avisa. Ele é o que vem antes. O presságio com patas.
O relógio marcou 3h10, 3h11, 3h12, 3h13…Na última noite em que apareceu não estava na rua. Estava dentro da redação. Sentado na minha cadeira.
— Hoje não tem nada — disse o sorriso.
— Como sabe? — perguntei.
— Porque você ficou. Porque você olhou. Porque você contou até 3h13, passou. Nada aconteceu. A cidade respirou.
O gato se levantou, esticou e começou a sumir. Primeiro a cauda. Depois as patas. Depois o corpo. No final, só ficou o sorriso, flutuando sobre o meu caderno.
— E agora? — perguntei.
— Agora você vê às 3h13 e conta. Para que os outros não precisem ver. Agora você é o presságio — disse o sorriso.
Ele sumiu de vez. Tentei trocar o plantão para me livrar das madrugadas.
— Você é nosso melhor repórter para fazer rondas na madrugada. Quando falta, levamos furo — disse o meu chefe.
Como não consegui, até hoje, toda vez que o relógio marca 3h12, sinto um arrepio. E olho para a rua. Às vezes tem um gato cinza sentado no meio-fio. Sorrindo. Esperando para ver se desta vez eu vou ter coragem de não olhar para trás.





































































































































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