Moacir Santos e o amigo Edézio Alves

6 ago 2026 | 0 comentários

Edézio e Moacir. Foto Acervo pessoal

Por Pedro Cunha

Há artistas que pertencem ao mundo inteiro, mas continuam tendo endereço na memória de uma cidade. Com Moacir Santos acontece algo parecido. O maestro que revolucionou a música brasileira, ensinou gerações de compositores, gravou discos fundamentais do jazz e morreu em Los Angeles jamais deixou de ser, para muitos sertanejos, apenas Moacir: o amigo que voltava para rever pessoas queridas, matar a saudade do baião de dois e rir como quem nunca havia saído de casa. Entre essas amizades, uma permaneceu viva, mesmo depois da distância geográfica: a relação com o maestro Edézio Alves de Oliveira e a família Alves, em Serra Talhada.

Em um país que frequentemente transforma seus grandes artistas em monumentos distantes, a amizade entre Moacir e Edézio ajuda a lembrar que os gênios também pertencem às mesas de almoço, às conversas demoradas e aos afetos construídos no cotidiano. É nesse lugar que também se encontra uma parte essencial da história da música brasileira.

Moacir Santos nasceu no Sertão pernambucano, na região de Serra Talhada, e desde muito cedo encontrou na música uma linguagem natural. Em um depoimento recuperado pela Rádio MEC, lembrava que, quando percebeu que era um ser vivo, a música já estava com ele. Ainda menino, em Flores, organizava bandas improvisadas com outras crianças pelas ruas da cidade. Antes mesmo de compreender teoria musical, já entendia o poder do som.

Essa relação precoce com a música não foi um acaso. As bandas do interior nordestino eram verdadeiras escolas populares. Muito antes de conservatórios acessíveis, eram elas que formavam instrumentistas, arranjadores e maestros. Foi nesse ambiente que Moacir cresceu e foi também nesse universo que encontrou companheiros de caminhada, como Edézio Alves.

Nascido em 25 de dezembro de 1927, em Serra Talhada, Edézio dedicou a vida inteira à música. Filho de Antônio Alves de Oliveira e Antonia Fernandes de Oliveira, tornou-se um dos nomes mais respeitados da história cultural do município. Saxofonista e clarinetista de talento reconhecido, construiu uma trajetória à base de uma dedicação quase absoluta à arte. Foi integrante da tradicional Jazz Band Serra Talhada, um dos conjuntos musicais mais importantes da cidade. Sua história se cruza com a de Moacir Santos nos anos 1940.

Os dois tocaram juntos na Jazz Band em uma época em que a música era também uma forma de pertencimento. O Sertão produzia instrumentistas extraordinários, mas poucos teriam a oportunidade de alcançar reconhecimento nacional ou internacional. Moacir alcançou. Edézio permaneceu fortalecendo a vida cultural de sua terra. Nenhum dos dois, porém, abandonou a identidade musical que os formou.

Amizade afinada pelo tempo

A relação ultrapassava a parceria artística. Havia afeto. Familiares lembram que Moacir mantinha convivência próxima com os Alves. Frequentava a casa do sobrinho de Edézio,  Anselmo Alves, tanto na Madalena, no Recife, quanto em Serra Talhada. Existia uma relação familiar construída ao longo dos anos. Moacir, Edézio e o auditor da Fazenda Estadual e também músico, Maximiano Alves, compartilhavam muito mais do que a música. Havia confiança, admiração e uma amizade que fazia com que se tratassem quase como irmãos.

Quando a musicalidade chegou à vida de Moacir, Edézio já estava entre aqueles que compartilhavam esse universo. "Em um Sertão onde as bandas eram parte da identidade coletiva, a amizade também era construída em torno dos ensaios, das apresentações e das viagens”, depõe Anselmo. "Talvez por isso Moacir nunca tenha rompido completamente com Pernambuco, mesmo depois de construir uma carreira internacional”.

Na adolescência, Moacir fugiu de casa e percorreu o Nordeste tocando em bandas militares e orquestras de circo. Havia nele, segundo quem conviveu de perto, uma influência quase cigana, uma necessidade constante de correr o mundo. Essa inquietação o levaria ao Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional, se tornaria arranjador e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira e Roberto Menescal.

Moacir Santos frequentava a casa de Anselmo Alves.
Foto Acervo Pessoal

Mais tarde, Moacir se mudaria para os Estados Unidos, trabalharia com Henry Mancini e Lalo Schifrin, lançaria discos pela Blue Note e receberia reconhecimento internacional. Sua obra fundiu as bandas filarmônicas do interior, a tradição afro-brasileira e o jazz em uma linguagem própria, sofisticada e profundamente brasileira. Sua composição mais conhecida, "Nanã", inspirada numa procissão e dedicada à mais antiga das orixás das religiões afro-brasileiras, atravessou fronteiras e ganhou interpretações de Nara Leão, Tim Maia, Sergio Mendes, Kenny Burrell e Gil Evans.

Fama primeiro, reconhecimento depois

Existe uma contradição inevitável na trajetória de Moacir Santos. Reverenciado por músicos, estudado por pesquisadores e reconhecido fora do país, ele demorou a ocupar o espaço de destaque que merecia na memória cultural brasileira. Talvez por isso o reencontro entre Pernambuco e Moacir tenha sido tão significativo.

Anselmo Alves participou diretamente de um momento histórico: a primeira grande reportagem de televisão dedicada ao maestro. Trabalhando na operação do jornalismo da TV Globo no Recife, ele integrou a equipe responsável pela matéria produzida pela repórter  Mônica Silveira, exibida após um pedido da direção de jornalismo do Jornal Hoje. Era como se o país começasse, enfim, a olhar para um dos seus maiores músicos. Anselmo guarda lembranças que escapam das biografias. Diz que o que mais admirava em Moacir eram o sorriso, a alegria permanente e o jeito simples. "Ele era um Dominguinhos na área dele", resume.

Hoje produtor cultural, Anselmo também recorda a última vez em que o maestro voltou a Pernambuco. Depois de um acidente vascular cerebral, Moacir já não tocava mais saxofone. Permaneceu apenas ao piano. O instrumento que o acompanhou até o fim substituiu o sopro que havia marcado grande parte de sua trajetória.

No entanto, mesmo distante, o Sertão continuava presente. Anselmo lembra que as conversas inevitavelmente chegavam à comida. Baião de dois, bode assado, sarapatel, carneiro. "Havia uma saudade gastronômica de Serra Talhada que sobrevivia ao tempo e à distância”, diz o produtor cultural. "O maestro que circulou pelo mundo carregava consigo o Sertão profundo, a saudade dos amigos e de casa”.

Edézio Alves. Acervo Pessoal

Há também pequenas histórias que revelam o tamanho da intimidade entre as famílias. Quando Maximiano Alves enfrentou um câncer agressivo na garganta, foi Moacir quem recomendou a compra de um saxofone francês. Um gesto simples, mas que evidencia a confiança construída entre eles ao longo de décadas.

"Enquanto Moacir seguia conquistando reconhecimento internacional, tio Edézio permanecia como uma referência musical em Serra Talhada. Liderou a Filarmônica Vilabelense, hoje com mais de 120 anos de história, criou o conjunto Edézio e Seus Red Caps, formou músicos, comandou sua própria orquestra e ajudou a consolidar instituições culturais da cidade”, destaca Anselmo, acrescentando que o tio, Edézio, também vítima de um câncer, seguia tocando nas noites da festa da padroeira da cidade. 

Edézio morreu em dezembro de 1987, aos 60 anos. Moacir partiria quase duas décadas depois, em 2006, em Los Angeles, após sofrer um derrame. Anselmo diz sentir saudade daquele Sertão profundo e da convivência com o gênio Moacir. A lembrança vai além da nostalgia. Antes de ser celebrado por músicos do mundo inteiro, Moacir preservou os afetos da infância, as amizades construídas no interior e o vínculo com a terra que o formou. E talvez seja impossível compreender completamente sua música sem compreender também essas amizades. Afinal, nenhum gênio nasce sozinho.


Pedro Cunha é jornalista

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