Por Cristiano Santiago Ramos
I
Depois de 25 anos escrevendo resenhas e ensaios sobre literatura, tento novamente algo sobre João Flávio Cordeiro da Silva, o Miró da Muribeca. São duas horas de uma madrugada fria e vazia de ideias aqui na pequena São Francisco Xavier, que talvez o poeta tenha conhecido (tantas foram as suas andanças pelo país). Abro uma janela para a noite cheia de constelações, de barulho de bichos e águas descendo a Serra da Mantiqueira. E continuo perdido.
Lá pelas bandas de 2011, eu tive algumas ideias sobre Miró. Um editor até gostou, mas foi sincero: “teremos que mudar de pauta, pessoal aqui me cobrou, porque você não é próximo dele nem especialista em sua obra”. Suficientes ou não, os argumentos eram – e ainda permanecem – verdadeiros.
Deu vontade de acordar e pedir ajuda a Wellington de Melo, autor do Estou quase pronto: uma biografia de Miró da Muribeca (Cepe, 2025). Ele nunca ligou muito para minha falta de credenciais nesse assunto. Há pouco lembrei-me da noite, lá em 2010, no Teatro Hermilo, em que nós e mais um bocado de gente ouvimos Miró falar não sobre inspiração, incorporação ou transcendência, mas sobre trabalho duro, sobre a ânsia de encontrar soluções para cada poema, a angústia no perseguir e lapidar imagens, no lidar com os seus (dele e dos poemas) aparentes limites, e também com os limites das aparências. E tudo com o jeito muito dele de mastigar esses lances, sem as manias e muletas acadêmicas.
Aquilo nitidamente deixou a plateia surpresa, até desconcertada. Estávamos quase todos nós à espera de lugares-comuns sobre o poeta das ruas, sobre como os versos baixavam ou fluíam em suas veias etc.
II
Foi mesmo no Hermilo a primeira vez em que realmente me interessei pela obra de Miró. Eu tinha passado tempo demais juntando bobagens sobre uma poesia que era indissociável da figura real do escritor, que necessitava de sua inigualável performance, cuja força só podia ser realmente percebida ao vê-lo declamar. Se era assim, por que eu deveria me interessar pelos textos? Não havia sentido em dedicar tempo e energia com palavras que só faziam sentido quando acompanhadas da voz e dos gestos do seu criador. Palavras que, inclusive, dependiam de amigos e editores para tomar a forma de escritos publicáveis.
Noutras palavras, foi naquele palco que eu finalmente percebi que havia me deixado (muito fácil e comodamente) enganar.
III
Descobrir a extensão do meu engano foi complicado. Encontrar os livros antigos do poeta era algo que dependia de amizades, sorte e muita paciência.
O lance é bem outro para os novos leitores, porque desde 2013 (e com a segunda edição de 2016) eles têm à disposição o Miró até agora (que segue em catálogo, pela Cepe) – reunião de uma obra vasta, cheia de altos e baixos (e talvez seja até verdade que alguns dos seus versos perdem força quando não declamados); cujas marcas da oralidade (e, portanto, também da ausência de Miró), além de outras tantas intervenções editoriais, somente confirmam sua complexidade e valor...
Mas tudo isso é assunto para depois, porque sigo sem ideias.
Tenho até amanhã para terminar o texto encomendado. E a única certeza que coloquei no papel é que precisamos libertar Miró, deixá-lo ir além de nós, além dele mesmo, além até desse Deus (ou da sua falta) que o poeta tantas vezes tomou pra briga; e bateu, teimou, lapidou até finalmente inscrevê-lo em dois dos mais belos poemas da língua portuguesa:
Há Deus 1
Deus fez o homem
e com o tempo foi deixando ele criança
cabelos brancos
dormindo depois do almoço
jogando no bicho
ou indo capenga aceitar Jesus
Deus fez o homem
com um cimento tão raro
misturou com uma areia tão fina
que é bem provável
que a gente volte ao barro
Há Deus 2
Deus, Tu que agora carregas um homem
puxando pelas rédeas seu cavalo e uns
sacos de cimento
de cada lado num sol insuportável
Deus
chove agora no meu coração
para que eu não pense em comprar um
guarda-chuva de balas
e fazer justiça com as próprias mãos

Miró até agora
Miró da Muribeca (Organização de Sennor Ramos)
Cepe
222 pp.
R$ 40

Estou quase pronto: uma biografia de Miró da Muribeca
Wellington de Melo
Cepe
292 pp.
R$ 70


















































































































































































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