Resistência, apesar de tudo

20 ago 2026 | 0 comentários

Por Paulo André Leitão

A fachada suja e pichada, o lixo na calçada e a inexistência de iluminação e vigilância já fazem parte da paisagem da avenida Dr. Manoel de Barros Lima, no bairro do Carmo, Centro Histórico de Olinda. Quem passa nem olha. O Cine Olinda é um monumento à inoperância, à incompetência, à incúria e à impunidade dos poderes públicos.

Corta.  

Projetor, caixas de som, filmes em exibição na tela fixada à parede, cerca de 120 pessoas em pé ou sentadas em cadeiras na calçada e na rua, livros e objetos à venda sobre mesinhas. Quem passa olha. O Cine Olinda é um monumento à resistência. 

O velho cinema nasceu em 1912 com o nome de Cine Teatro de Variedades, passou a se chamar Cine Olinda na década seguinte, entrou em declínio nos anos 1950 e deixou de funcionar em 1965. Sábado, 15, ganhou um sopro de vida. 

Cinema como ato político

Filmes exibidos na rua são a principal atividade do Coletivo CineRuaPE, criado em 2015 com o objetivo de discutir estratégias de continuidade, sustentabilidade e conscientização da importância de preservar os cinemas de rua remanescentes em Pernambuco. 

”Essas sessões de cinema não são apenas sessões de cinema, são também momentos políticos. Funcionam principalmente como momentos e espaços para articulações, fabulações e confabulações”, explica a professora Karuna de Paula, integrante do coletivo desde sua criação e autora do texto sobre a história do Cine Olinda, publicada no livro Cinemas de Rua de Pernambuco - Memória gráfica, visual e afetiva, organizado pelo CineRuaPE. 

Karuna mediou a participação dos cineastas convidados e do público durante os depoimentos sobre os filmes exibidos e a etapa de perguntas e respostas, que teve falas de moradores da cidade, sempre com relatos de tempos passados, e de visitantes. A programação da noite juntou “Onde começa um rio”, dirigido coletivamente por Julia Karam, Maiara Mascarenhas, Maria Cardoso e Pedro Severien, sobre os atos contra a chamada PEC do Fim do Mundo, do então presidente Michel Temer, e “Este cinema não possui saída de emergência”, que documenta a ocupação de três meses do Cine Olinda, iniciada em 30 de setembro de 2016.

Karuna de Paula mediou a sessão. Foto Paulo André Leitão

​”A ocupação foi fundamental para as pessoas se apropriarem do espaço. Acredito que toda a luta pelo cinema parte dessa apropriação. Antes dela, ocorreu uma tentativa de funcionamento sob o nome de Cine Bajado, quando o prédio já tinha sido desapropriado pela Prefeitura de Olinda. Durante um período, o espaço abrigou sessões interessantes em caráter de ocupação (de forma semelhante ao que aconteceria em 2016), mas o cinema ainda não estava funcionando em plenas condições para tanto”, relembra Karuna. 

Atuação do Coletivo

A sessão de sábado representa mais um passo no retorno do CineRuaPE a exibições em frente aos cinemas. A primeira realizou-se diante do Teatro do Parque, no Recife, que também funciona como cinema, eventualmente. A infraestrutura de trabalho do grupo melhorou muito, desde que passou a contar com recursos financeiros de projeto aprovado pela Lei Paulo Gustavo. 

“Nós defendemos os cinemas de rua não por saudosismo, porque parece gourmet ou para ir na contramão, mas porque eles possuem um potencial imenso para promover sociabilidade, criando espaços de convivência, fruição cultural e encontro para a população; fomentar políticas culturais, ao viabilizar o usufruto da arte de forma acessível; formar o olhar do público, oferecendo uma curadoria de filmes que não é meramente mercadológica; e estimular a criticidade, ao fazer do cinema uma ferramenta para a reflexão e para a imaginação de novos mundos”, argumenta Karuna. 

Moradores de Olinda deram depoimentos emocionados sobre o cinema.
Foto Paulo André Leitão

Situação atual

​De acordo com Karuna, existe uma articulação envolvendo o Ministério da Cultura (MinC), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Agência Nacional do Cinema (Ancine) para reabrir o Cine Olinda. Licitação e projetos complementares seguem em tramitação. “​No entanto, a Prefeitura de Olinda não apresenta, de forma convincente, interesse político real e efetivo na reabertura. Concordo que é uma grande falha das gestões e do poder público manter esse espaço fechado. Precisamos tornar essa pauta conhecida para que a sociedade fortaleça nossa reivindicação. O CineRuaPE atua para dar visibilidade a isso”, conclui.


Paulo André Leitão é jornalista

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