Entraves para o crescimento do mercado de livros infantis

20 ago 2026 | 0 comentários

Na terceira reportagem da série Primeiras páginas, o olhar se volta para quem escreve, ilustra, publica e faz circular os livros que chegam às mãos das crianças. Editoras independentes, novos autores e uma produção cada vez mais diversa convivem com obstáculos antigos: distribuição concentrada no Sudeste, dificuldade de acesso às compras públicas e um país que vem perdendo leitores. 

Por Pedro Cunha
Aos quatros anos, Isabela Santana ainda está descobrindo o tamanho do mundo, mas os livros já fazem parte desse território de descobertas. Nessa idade, uma história não precisa esperar que todas as letras façam sentido. Ela pode começar na capa, continuar nas ilustrações, ganhar voz quando um adulto lê e terminar muito depois da última página, na imaginação de quem ouviu.

É para crianças como Isabela que uma parte cada vez mais diversa do mercado editorial pernambucano escreve, desenha, imprime e publica. Nos últimos anos, novas editoras, autores, ilustradores e projetos independentes ampliaram a oferta de literatura voltada à infância no estado. Há mais títulos nas prateleiras, projetos gráficos mais elaborados e pequenas casas editoriais que encontraram nesse público uma parcela importante de seus catálogos.

Mas colocar mais livros em circulação não significa, necessariamente, ter um mercado maior. “Vejo que há mais editoras e iniciativas por parte de autores, mais títulos sendo publicados, a qualidade desses livros se elevando. Mas não sinto que o mercado esteja crescendo de fato”, avalia o escritor e editor Thiago Corrêa, um dos fundadores da Vacatussa.

A avaliação expõe uma contradição. O mercado editorial brasileiro voltou a apresentar sinais positivos nas vendas, inclusive no segmento infantil e juvenil, enquanto o país perdeu leitores nos últimos anos. Em 2025, o faturamento das editoras com vendas ao mercado cresceu 3,3% acima da inflação, segundo a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada pela Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, com apuração da Nielsen BookData. Entre os livros infantis e juvenis, o avanço do faturamento foi de 5,3% em relação ao ano anterior.

Um ano antes, em 2024, os livros infantis e juvenis haviam respondido por 18,4% dos exemplares comercializados pelas editoras brasileiras no mercado e por 13% do faturamento. No conjunto, o setor vendeu 174 milhões de exemplares e movimentou R$ 4,2 bilhões nas vendas ao mercado.

Os números convivem com uma realidade menos confortável. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que apenas 47% dos brasileiros poderiam ser considerados leitores em 2024. Pela primeira vez desde o início da série histórica, os não leitores se tornaram maioria: 53% da população declarou não ter lido nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. O país passou de 100,1 milhões de leitores, em 2019, para 93,4 milhões em 2024.

Entre a criança que abre um livro pela primeira vez e a editora que tenta fazer esse exemplar chegar até ela existe, portanto, uma cadeia inteira. Em Pernambuco, é justamente essa distância que autores, ilustradores, livreiros e pequenos editores tentam encurtar.

Uma editora nascida no Agreste

Foi em Lagoa dos Gatos, no Agreste pernambucano, que Patrícia Vasconcellos fundou, em 2012, a Editora Pó de Estrelas. Desde o início, a casa partiu de uma compreensão particular sobre o livro ilustrado: texto, desenho, papel, formato, tipografia e projeto gráfico não são peças separadas. Todos ajudam a contar a história.

Patrícia Vasconcelos, da Pó de Estrelas. Foto Divulgação

Hoje, a editora reúne três selos: Pó de Estrelas, Caleidoscópio e Maracajá Cartonera. Este último nasceu inspirado no movimento cartonero argentino e trabalha com capas de papelão e materiais reciclados, abrindo espaço também para escritores da cidade de Lagoa dos Gatos.

A acessibilidade entrou na concepção dos projetos editoriais. O catálogo inclui obras com audiodescrição, tradução em Libras e audiolivros. Em 2024, a Pó de Estrelas ganhou ainda um endereço físico no Recife, com a abertura de uma livraria no Poço da Panela.

Do contato diário com leitores, Patrícia percebe um movimento de famílias que procuram oferecer aos filhos uma experiência que não esteja limitada às telas. Ela, porém, evita transformar a relação entre livro e tecnologia numa disputa. “As crianças constroem repertório a partir das experiências que vivenciam. Quando têm a oportunidade de ler livros literários de qualidade, impressos, expressam um vínculo verdadeiro e afetivo com o livro enquanto objeto cultural”, afirma.

A própria editora trabalha com formatos digitais acessíveis. Para Patrícia, o impresso ocupa outro lugar. “O que o impresso oferece, e a tela não substitui, é outra coisa: o tempo lento, o corpo, o peso do objeto na mão, a página que se vira.”

Thiago Corrêa vê no livro uma resposta possível à dispersão provocada pelo excesso de estímulos digitais na infância. Ele pensa que o livro é a melhor resposta a esse problema das telas. "Por essência, o livro exige foco, concentração e convida o leitor para que use sua imaginação", destaca. "É um antídoto para a dispersão, a passividade zumbi e o preenchimento completo dos sentidos que as telas oferecem.”

A permanência do papel também aparece nas pesquisas nacionais. Mesmo com celulares, tablets e leitores digitais incorporados à rotina, o livro impresso continua tendo espaço importante entre os brasileiros. Para as editoras infantis, há ainda um componente particular: o objeto faz parte da própria experiência narrativa. Texturas, cores, formatos, ilustrações e a maneira como uma página revela a seguinte interferem na leitura.

Quem escolhe o livro?

Nas prateleiras, adultos e crianças nem sempre procuram a mesma coisa. Em feiras e eventos literários, Patrícia observa pais e filhos discutindo e escolhendo juntos. Na Livraria Pó de Estrelas, ela percebe uma tendência maior de os adultos tentarem conduzir a decisão. As crianças, por sua vez, defendem aquilo que despertou curiosidade.

“Para as crianças não há um único critério. Capa, título, personagens, ilustrações, materialidades do livro, temática. Os pais percebem a escolha como algo mais pedagógico: muitas ou poucas palavras, muitas ou poucas páginas”, conta a editora.

A diferença fica evidente sobretudo diante dos livros ilustrados. Há adultos que associam uma obra com pouco texto a uma leitura simples ou destinada apenas aos menores. Patrícia contesta essa classificação. “Há os livros ilustrados, em que todas as materialidades do livro fazem parte da narrativa, e para eles não existe faixa etária, pois existem várias camadas de interpretação.”

Thiago, por sua vez, identifica processo parecido nas feiras das quais a Vacatussa participa. Não existe, segundo ele, uma fórmula capaz de antecipar qual obra vai chamar a atenção. “Acredito que cada livro tem o seu leitor, o seu momento. Pela experiência com os livros da Vacatussa, em eventos e feiras, vejo que alguns aspectos determinam a escolha de um livro. Tem o fator da idade, claro, tamanho e complexidade da história. Alguns são atraídos pelo colorido de uma capa, pelo inusitado da história, por um tema de interesse em comum.” Tudo isso, completa ele, serve para o primeiro contato. “Mas, no fim, tudo isso é apenas uma isca. O que importa mesmo é se a história funciona.”

Nem que a vaca tussa

A Vacatussa nasceu de uma insistência. Criada em maio de 2004 por ex-alunos da Oficina de Literatura Raimundo Carrero, começou como um grupo que se reunia semanalmente para escrever, ler e discutir os próprios textos. O nome carregava a disposição dos integrantes de continuar produzindo literatura “nem que a vaca tussa”.

Thiago Correa, da Vacatussa. Foto Divulgação

Em 2005, veio a primeira edição da Revista Vacatussa. Depois, o grupo criou um site dedicado à publicação de textos ficcionais, críticas de livros e entrevistas com escritores. Projetos financiados pelo Funcultura permitiram novas temporadas da revista e reuniram autores e artistas visuais de diferentes gerações. Quinze anos depois das primeiras reuniões, a experiência ganhou formalmente a estrutura de uma editora. E foi um livro infantil que abriu essa nova fase.

A engenhoca, de Thiago Corrêa Ramos, com ilustrações de Victor Zalma, foi publicado em abril de 2019. A história acompanha Nicolau, homem que vive com os olhos voltados para o céu e precisa reorganizar a rotina quando nasce a filha, Aurora. Dividido entre a observação dos astros e a paternidade, ele decide construir uma máquina para tentar solucionar o problema.

No mesmo ano, veio O coelho e o leão, de Julio Cavani, com ilustrações da Lorota. A história parte da figura de um leão que sustenta a fama de Rei do Zoológico graças ao rugido, aos dentes e às garras, mas guarda um segredo colocado à prova com a chegada de um coelho corajoso.

O que começou com esses títulos cresceu dentro do catálogo. Hoje, a literatura para a infância é o segmento mais importante comercialmente para a Vacatussa. A editora mantém 14 títulos voltados ao público infantil, alguns deles já na terceira edição. As tiragens costumam variar de 300 a 500 exemplares.

Para Thiago, esse desempenho mostrou à editora que havia um público interessado nesse tipo de produção. “Hoje, os livros para a infância ocupam um lugar central na Vacatussa. É a área em que conseguimos construir o maior catálogo e também aquela que tem dado a melhor resposta de vendas. Para uma editora independente do nosso tamanho, é um resultado importante”, afirma o editor.

Venda no pingadinho

No mercado editorial brasileiro, as compras públicas têm capacidade de mudar completamente a escala de circulação de um título. O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), por exemplo, compra obras destinadas às redes públicas de educação básica e pode representar pedidos muito superiores àqueles obtidos no varejo. Para uma pequena editora, porém, chegar a esse mercado não é simples.

“Sempre que é ano de compra governamental, como as do PNLD, o mercado de livros cresce. Mas isso é uma realidade que não existe para uma editora independente, pequena, como a Vacatussa, devido à complexidade do processo e ao nível de exigências”, salienta Thiago.

As escolas particulares, diz ele, aparecem como outra possibilidade. Uma obra indicada na lista de materiais pode garantir dezenas ou centenas de vendas de uma só vez e apresentar aquele autor a novos leitores. Também nesse ambiente existem barreiras. “As escolas são um caminho interessante, ter um livro indicado na lista de materiais, além do respaldo, garante vendas. Mas é difícil entrar nisso, são raros os colégios que se abrem a isso. Nosso foco são os leitores, vendas no pingadinho, em eventos e feiras.”

Patrícia também chama atenção para o peso das compras institucionais na organização do setor. “As livrarias são uma grande vitrine para a produção editorial brasileira, mas as compras substanciais ocorrem através de editais governamentais, e essa condição, de uma certa forma, direciona o que se publica, os formatos, as temáticas.”

A Pó de Estrelas conhece esse caminho. A editora já teve obras selecionadas pelo PNLD e acumulou reconhecimentos como os selos da Cátedra PUC-Rio/UNESCO para O acordeão vermelho e O sertão e o mar, além do Prêmio FNLIJ e da seleção da revista Crescer para As mãos do meu pai. O original coreano deste último recebeu menção especial na categoria Não Ficção do BolognaRagazzi Award 2022. Prêmio, reconhecimento e qualidade editorial, entretanto, não resolvem sozinhos um dos problemas mais antigos para quem publica longe do eixo dominante da indústria brasileira: fazer o livro circular.

Livraria Pó de Estrelas atende a público diverso. Foto Patrícia Vasconcelos/Divulgação

O CEP ainda pesa

Quando perguntado sobre a principal dificuldade para uma editora pernambucana fazer seus títulos chegarem aos leitores de outros estados, Thiago não hesita: “Distribuição”, responde. O problema começa pela própria geografia do mercado. Editoras, distribuidoras, grandes compradores, veículos especializados e boa parte da estrutura comercial do setor permanecem fortemente concentrados no Sudeste.

Para uma pequena casa pernambucana, colocar um livro numa livraria a milhares de quilômetros significa enfrentar custos de transporte, armazenamento, consignação, descontos do varejo e possíveis devoluções. Numa tiragem de 300 ou 500 exemplares, cada parcela dessa conta ganha peso. É nesse contexto que Thiago relativiza o crescimento do número de autores e ilustradores no estado. Pernambuco, pontua ele, continua revelando talentos, mas isso não significa que exista uma estrutura econômica capaz de sustentá-los.

“O estado tem seus talentos, autores e ilustradores. E eles continuam a surgir, mas acho que mais pelas facilidades de produção atual, com a possibilidade de criação e impressão de livros de forma mais barata, do que pelo crescimento e solidez do mercado”, destaca Thiago, acrescentando que publicar ficou mais acessível. Viver da publicação, não necessariamente.

“O mercado é pequeno, a grana é pouca e as oportunidades são esporádicas. Não é um meio de vida seguro, não oferece estabilidade necessária para que uma pessoa se dedique a essa tarefa, se aperfeiçoe, amadureça”, acrescenta o editor. “A gente continua nessa luta por gosto, por militância, por sonho. Porque a realidade nos empurra pra fora.”

Patrícia também percebe as consequências da concentração editorial brasileira. Mesmo com reconhecimento nacional e participação em programas públicos, uma editora que nasceu no Agreste precisa vencer distâncias que não são apenas geográficas. Há, ao mesmo tempo, procura por obras produzidas no Estado.

“Há espaço, e há procura. Muitas vezes existe até a busca direta: uma memória afetiva, uma saudade, o desejo de levar um pedacinho de si na bolsa para os mundos e as pessoas com as quais irão compartilhar os livros e suas histórias”, pontua. Ela faz, porém, uma ressalva: produzir em Pernambuco não significa estar condenado a falar apenas sobre Pernambuco. “A editora, embora tenha nascido no agreste, não é uma editora de temática regional. Publicamos o que queremos dizer ao mundo.”

Quanto custa fazer um livro?

Antes de chegar à prateleira, um livro passa por uma cadeia extensa. Escritor, ilustrador, preparação de texto, revisão, projeto gráfico, papel, impressão, acabamento, armazenamento, divulgação, transporte e distribuição participam, em proporções diferentes, da composição do preço.

Para editoras pequenas, há uma dificuldade adicional: quanto menor a tiragem, mais difícil diluir os custos. Thiago reconhece que o encarecimento da produção chega inevitavelmente ao preço final, mas contesta a ideia de que o valor de capa explique sozinho as vendas baixas. “Quanto mais caro é o custo de produção, mais caro fica o livro. Mas pela experiência com a Vacatussa te afirmo que o preço não é o problema dos livros.”

Ele cita títulos da própria editora realizados com recursos de leis de incentivo, o que permitiu reduzir o preço para o consumidor. “Alguns livros da Vacatussa foram publicados com lei de incentivo e tinham o preço final mais barato que um hambúrguer ou semelhante ao estacionamento de shopping. E nem por isso as vendas eram maiores do que os outros livros.” A comparação desloca a discussão do preço para o hábito. Um livro barato não cria automaticamente um leitor.

Patrícia acrescenta outro lado dessa equação. Para grande parte das famílias brasileiras, o preço continua sendo uma barreira concreta. Mas ela considera equivocado esperar que todo acesso à literatura aconteça pela compra individual. “Há uma imagem, erroneamente difundida, de que os livros são artefatos culturais caros. Existe toda uma cadeia do livro, um trabalho realizado por muitas pessoas, em várias etapas, para que o objeto livro esteja nas prateleiras das livrarias, das bibliotecas e das casas. Esse ciclo precisa ser valorizado e honrado.”

Livros precisam encontrar leitores

É nesse ponto que uma discussão aparentemente econômica volta à formação de leitores. Para Patrícia, bibliotecas públicas e escolares deveriam cumprir papel central na democratização do acesso, inclusive garantindo que obras produzidas com qualidade possam chegar a crianças cujas famílias não frequentam livrarias.

“Compra pública bem feita não é gasto: é política de leitura. E é o que faz um livro premiado, feito com cuidado, estar na mão de uma criança do agreste e não só na de quem pode escolher na prateleira”, enfatiza. A existência de acervo, contudo, não encerra o problema. “A segunda oportunidade é a formação. Não adianta acervo sem mediação: professores, bibliotecários e famílias precisam viver a experiência literária para poderem oferecê-la”.

Na Livraria Pó de Estrelas, Patrícia percebe um público que vai além das famílias com crianças. Psicoterapeutas, médicos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, estudantes, pesquisadores e profissionais ligados à cadeia do livro frequentam o espaço. Professores da educação básica aparecem com menor frequência. Ela avalia que fatores como jornada de trabalho, deslocamento e salário ajudam a explicar a ausência, mas não são os únicos. Parte dos educadores, segundo ela, ainda estabelece uma relação com a literatura fortemente associada à obrigação pedagógica.

Cultura e educação na mesma página

Thiago também considera impossível falar em fortalecimento da literatura infantil sem colocar políticas públicas no centro da discussão.

Ele destaca a necessidade de o estado precisar de uma política pública consistente na formação de leitores. O editor chama atenção ainda para a necessidade de articulação entre diferentes áreas do próprio poder público. “A Secretaria de Educação precisa conversar com a Secretaria de Cultura”, diz, de forma taxativa.

Ele recorda um episódio que considera representativo dessa falta de diálogo. Ao saber da realização de uma iniciativa governamental ligada ao livro, na qual professores e estudantes teriam uma espécie de voucher para adquirir obras, procurou o setor responsável pela literatura na área cultural. “Fui atrás, entrei em contato com a coordenação de literatura e eles nem estavam sabendo, porque era algo da Secretaria de Educação.”

Para pequenas editoras, expressa Thiago, políticas permanentes de aquisição poderiam cumprir uma dupla função: renovar acervos de escolas e bibliotecas e criar circulação para uma produção local que dificilmente alcança escala apenas com vendas em livrarias e eventos. “É também uma maneira de fazer o dinheiro público destinado à formação de leitores alcançar diferentes elos da cadeia editorial”. 

Livros infantis para todos os gostos. Foto Patrícia Vasconcelos/Divulgação

O livro que resiste

O mercado de literatura infantil pernambucano chega, assim, a um momento curioso. Há mais autores e ilustradores publicando. Pequenas editoras construíram catálogos próprios. A literatura para crianças tornou-se o principal segmento de uma casa como a Vacatussa, que hoje mantém 14 títulos nessa área e já viu algumas obras alcançarem a terceira edição. A Pó de Estrelas saiu de Lagoa dos Gatos, conquistou prêmios, chegou ao PNLD e abriu uma livraria no Recife. Nada disso, porém, elimina a fragilidade da cadeia.

Há produção sem distribuição suficiente. Talento sem estabilidade profissional. Livros sem bibliotecas atualizadas. Editoras que conseguem publicar, mas precisam vender exemplar por exemplar em feiras. Um mercado nacional que movimenta bilhões enquanto o número de brasileiros que lê diminui.

Talvez por isso Patrícia evite medir o sucesso de um livro infantil apenas pela velocidade com que ele sai da prateleira. “Não trabalho com o que atrai mais. Trabalho com o que resiste: o livro que a criança volta a pegar meses depois, que ela pede de novo, que ela leva para a cama.”

Thiago chega ao mesmo ponto por outro caminho. Capa, cor, formato, ilustração e assunto podem convencer uma criança a estender a mão. Depois disso, nenhuma estratégia comercial consegue fazer o trabalho da literatura. “O que importa mesmo é se a história funciona.”

Isabela Santana, futura leitura que abre esta matéria, pertence à geração para a qual todas essas editoras estão produzindo. Antes que ela escolha um autor pelo nome ou saiba o que é uma editora independente, haverá capas, desenhos, personagens e histórias esperando para serem descobertos.

O desafio do mercado pernambucano talvez comece bem antes da venda: garantir que esses livros consigam chegar até crianças como Isabela. Porque, para uma história ganhar um leitor, primeiro ela precisa estar ao alcance da mão.

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