Por Pedro Cunha
Luíza Fontes tinha 17 anos quando começou a descobrir que ser desastrada poderia ser uma qualidade. Até então, para ela, tropeçar, não ter tanta destreza com o corpo ou deixar uma insegurança escapar eram coisas que talvez devessem ser corrigidas. A palhaçaria lhe apresentou outra lógica: em cena, aquilo que parecia falha podia ganhar valor, provocar riso e revelar traços que não precisavam mais ser escondidos. Quase duas décadas depois daquele primeiro curso, essa descoberta acompanha Luíza por lugares muito diferentes: dos teatros onde se tornou conhecida como a Palhaça Gardênia aos hospitais, escolas, comunidades e territórios onde brincar e ter acesso à arte ainda estão longe de ser experiências garantidas.
Atriz, palhaça, contadora de histórias, arte-educadora e produtora cultural, Luíza atua profissionalmente desde 2008. O teatro chegou antes, aos 11 anos, ainda na escola. Depois do Ensino Médio, entrou no curso de teatro do Sesc e conseguiu o primeiro trabalho profissional, no espetáculo A Árvore de Júlia, montagem pernambucana baseada no livro El árbol de Julia, do espanhol Luis Matilla. A criação da peça a aproximou ainda mais da palhaçaria: havia palhaços no elenco, uma formação na linguagem fazia parte da pesquisa e, dali, vieram novos cursos, oficinas e encontros.
Na época, Luíza cursava Letras em uma universidade federal, mas o teatro passou a ocupar espaço demais para permanecer como atividade paralela. Deixou o curso, saiu de Pernambuco e foi para Minas Gerais estudar Teatro na Universidade Federal de Minas Gerais. Em Belo Horizonte, aproximou-se de coletivos, participou de formações e passou a trabalhar como palhaça. Aos 22 anos, integrou o Instituto HAHAHA, dedicado à palhaçaria hospitalar. Mais tarde, seguiria estudando na ESLIPA, no Rio de Janeiro, e na Escola de Palhaças, em São Paulo. “Desde o início da minha trajetória profissional, a palhaçaria já ocupava um lugar de protagonismo, até se tornar uma das principais linguagens com as quais trabalho”, conta.
O contato com as crianças
A experiência nos hospitais colocou Luíza diante de uma pergunta que seguiria com ela: o que pode fazer uma palhaça quando a realidade ao redor parece oferecer poucos motivos para rir? Nos quartos, encontrou crianças submetidas a tratamentos prolongados, doenças graves, famílias exaustas, recuperações e perdas. O trabalho não consistia em fingir que aquilo não existia. A tentativa era impedir que a doença resumisse quem estava diante dela. “Tentamos enxergar a criança, seu lado saudável e o lado da brincadeira. No momento em que eu estava como palhaça, encontrando a criança, tentava não acessar tanto a realidade da doença, para realmente entrar naquele mundo de brincadeira que construiríamos juntas”, expressa a multiartista. "Mas isso não significa que aquela realidade que eu vi não me atravessasse. Voltava para casa pensando nas histórias, nas famílias, nas crianças que passavam grande parte da vida no hospital, ficando triste com as perdas e também feliz com cada melhora e cada vitória”.

Desde 2017, ela integra o Palhaços Sem Fronteiras Brasil e hoje é uma das coordenadoras da organização em Pernambuco. O trabalho levou aquela pergunta dos hospitais para outros territórios. A organização atua com populações em contextos de alta vulnerabilidade social e crise humanitária, utilizando espetáculos profissionais, oficinas e ações de arte-educação para ampliar o acesso às artes circenses e à palhaçaria. Por trás das apresentações está uma ideia que ultrapassa o entretenimento: brincar, criar e ter contato com a arte também fazem parte do direito à infância e à adolescência.
Vivência internacional
Luíza já participou de ações com pessoas em situação de refúgio, esteve na Venezuela e trabalhou com agentes socioculturais na Colômbia. São experiências que colocam o ofício diante de seus próprios limites. Uma palhaça, diz ela, não interrompe uma guerra, não elimina a pobreza e não desfaz uma história de violência. O riso tampouco substitui políticas públicas ou apaga violações de direitos. "O que a arte pode oferecer é outro espaço possível dentro de uma realidade que, muitas vezes, já tomou quase todos os outros”, enfatiza. "Por alguns instantes, uma criança pode deixar de ser vista apenas pela condição social, pela violência que testemunhou ou pelo deslocamento que sofreu e voltar a ocupar o lugar de quem brinca, inventa e participa".

Em Pernambuco, essa atuação tem se concentrado no Recife e na Região Metropolitana e assumido um caráter mais contínuo. Em vez de apenas chegar, apresentar e partir, o grupo tem investido na arte-educação e na realização de oficinas em espaços onde seja possível acompanhar as crianças por períodos mais longos. A proposta é criar vínculos e desenvolver, ao longo desse convívio, experiências com a linguagem do circo e da palhaçaria.
A permanência também faz aparecer aquilo que uma apresentação pontual dificilmente revela. Educadores compartilham histórias de crianças que testemunharam situações de violência, sofreram bullying ou convivem com rejeição e problemas de autoestima. A partir dessa escuta, os exercícios passam a trabalhar confiança, aceitação, convivência e a relação com o próprio corpo. “Pensamos em como desenvolver situações e exercícios que possam contribuir diante das carências dessas crianças, que vão além das questões socioeconômicas”, detalha Luiza.
O contato com crianças neurodivergentes, segundo acrescenta, é outra camada desse trabalho. Luíza passou a observar como uma atividade aparentemente simples pode ser recebida de maneiras distintas. Algumas crianças têm sensibilidade a sons intensos; outras precisam saber antecipadamente o que vai acontecer para lidar com mudanças na rotina. Em uma ação recente, por exemplo, a equipe utilizou chaveiros de previsibilidade com fotografias do espetáculo e da palhaça para preparar os alunos nos dias anteriores à apresentação. Luíza também já ministrou aulas de palhaçaria para pessoas surdas, experiência que a levou a rever formas de construir humor e comunicação.
É nesse trânsito entre palco e território que a ideia de democratizar a arte deixa de ser abstrata. Para Luíza, não basta levar um espetáculo a um lugar onde ele normalmente não chegaria. É preciso pensar quem consegue participar, quem permanece excluído e de que maneira diferentes corpos e formas de perceber o mundo encontram espaço na experiência artística.
O riso não diminui o outro
A própria construção de Gardênia acompanha essas inquietações. O nome surgiu durante uma oficina na Argentina. Uma tempestade interrompeu a atividade, faltou energia e a professora conduziu uma espécie de ritual teatral. Ao tocar as costas de cada participante, pedia que dissesse um nome. Luíza respondeu Gardênia. Depois, sonhou com a palavra. “Foi assim que surgiu o nome da palhaça que já estava nascendo”, revela a artista.
Ela confessa que há muito de uma na outra. “Acho que Gardênia deu a Luíza a possibilidade de ser ela mesma.” O desajeito, as dificuldades com coordenação motora e as inseguranças encontraram espaço na personagem. “Sempre fui uma pessoa que enxergava muito mais os meus ditos defeitos do que as minhas qualidades, e a palhaçaria me ensinou a ver a minha força.”
Ser mulher também interferiu nessa pesquisa. Luíza começou a se formar em um período de crescimento de encontros, festivais e coletivos de mulheres palhaças no Brasil. Nesses espaços, encontrou acolhimento, mas também a possibilidade de questionar uma tradição cômica que, em determinados números e dramaturgias, reproduziu machismo, racismo, homofobia e transfobia. Para ela, a presença de mulheres, pessoas de gêneros dissidentes e diferentes corpos ampliou aquilo que pode ser colocado em cena e abriu espaço para “denunciar o riso que oprime”. Fazer rir, nessa perspectiva, também exige perguntar quem está sendo transformado em alvo para que a piada funcione.
A jornada de Gardênia volta ao palco
É Gardênia quem conduz A Boba – Uma Jornada, espetáculo que Luíza apresenta em curta temporada, desta sexta (28) até domingo (30), no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, com entrada gratuita e linguagem acessível para todas as idades. Estreada em 2022 e vencedora do Prêmio Sesc Nacional de Artes Cênicas daquele ano, a montagem tem atuação e dramaturgia da artista e combina palhaçaria, teatro, manipulação de bonecos e objetos e referências das tradições populares.

Na história, Gardênia percebe que algo lhe falta e deixa seu lugar de origem para procurá-lo. Pelo caminho, atravessa desafios, desvia da morte e encontra situações que transformam uma viagem exterior em busca de autoconhecimento. A dramaturgia nasceu dos estudos de Luíza sobre a jornada do herói e ganhou outra camada durante a pandemia, quando ela se aproximou do tarô e encontrou relações entre essa estrutura narrativa e a jornada do Louco — ou do Bobo.
Há elementos autobiográficos nessa partida. Luíza também deixou Pernambuco, viveu em Minas Gerais, percorreu cidades do interior e outros estados e voltou anos depois. “A jornada da arte é uma jornada que me leva a conhecer muitas coisas e muitas pessoas e também a encontrar pedacinhos de mim pelo caminho”, confessa.
Quando estreou A Boba, apesar de já ter mais de dez anos de experiência, Luíza encarava seu primeiro solo de palhaçaria. Vieram insegurança, medo do julgamento e a pergunta sobre conseguir sustentar sozinha uma história tão próxima de si. Quatro anos depois, ela diz ter aprendido a aceitar melhor uma regra básica do ofício: nem tudo estará sob controle. “O palhaço e a palhaça lidam com o erro. Há dias que não serão bons, e tudo bem. Seguimos nessa jornada.”
Talvez essa relação com o erro ajude a entender a distância percorrida desde aquela primeira formação aos 17 anos. A menina que enxergava no próprio desajeito algo a corrigir fez dele linguagem. “A palhaçaria me ensinou a ver a minha força”, resume. A palhaça que nasceu depois levou essa linguagem a teatros, hospitais, escolas, fronteiras e comunidades. E, nesses lugares, Luíza encontrou uma dimensão do riso que não depende apenas da gargalhada. Às vezes, ele aparece na possibilidade de uma criança brincar onde quase tudo ao redor exige que ela cresça cedo demais. Em outras, na chance de entrar em cena sem esconder aquilo que falta, falha ou escapa. Gardênia aprendeu a fazer isso. E, pelo visto, Luíza também.


















































































































































































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