A música vai tomar conta dos palcos do Recife. Mas não estamos falando da programação de shows, que tem na agenda dos próximos dias o mangueboy Lúcio Maia (dia 6 no Estelita) e o hitmaker Peninha no Projeto Seis e Meia (dia 11 no Parque). O assunto aqui são os espetáculos Anunciação – Um Musical sobre Alceu Valença, Moraes Musical Moreira e a ópera Il Campanello, que poderão ser conferidos neste final de semana. Por uma coincidência do destino, as três atrações têm a música como fio condutor de suas tramas.
Idealizado por Miguel Colker, “Anunciação – Um Musical sobre Alceu Valença” ocupa o Teatro do Parque até o domingo (dia 6). Depois do Rio de Janeiro, o Recife é a segunda cidade a receber a montagem, que traz uma abordagem diferente: em vez de uma narrativa biográfica linear, ela mergulha no universo poético e simbólico do artista pernambucano, que completou 80 anos no dia 1º de julho, para construir uma dramaturgia que dialoga com suas canções e personagens. Para o crítico carioca Mauro Ferreira, do G1, “o espetáculo surpreende positivamente ao se desviar da fórmula dos musicais biográficos com dramaturgia original, criada a partir do cancioneiro do compositor pernambucano”.

A encenação tem direção geral do próprio Miguel e direção artística de Duda Maia. Já a dramaturgia e os textos são assinados por Luiza Loroza e por Eduardo Rios. No palco, canções icônicas como “Anunciação”, “La Belle de Jour”, “Tropicana” e “Como Dois Animais” ajudam a conduzir o público por uma experiência sensorial que mistura teatro, música e poesia, revelando diferentes camadas da obra de Alceu, que vão do lirismo urbano às raízes nordestinas.
O elenco conta com Luiza Loroza, Juzé, Jef Lyrio e a pernambucana Natasha Falcão, entre outros. “Anunciação” se propõe a traduzir em cena a força estética e cultural de um artista que soube fundir ritmos nordestinos — como frevo, maracatu, coco e baião — com elementos do rock e da música pop, criando uma linguagem própria e atemporal.
Enquanto as músicas de Alceu embalam uma dramaturgia original, no espetáculo "Moraes Musical Moreira" - em cartaz no Teatro Luiz Mendonça da sexta (4) até domingo (6) - o público poderá conhecer um pouco mais sobre a trajetória do baiano de Ituaçu, que um dia escreveu os versos "Tem gente, tem gente que pensa / Que eu sou o Alceu Valença / Também já aconteceu / Pensaram que Alceu era eu" para a música "Pernambuco é Brasil".
Após a estreia nacional em Salvador, a produção inicia sua circulação pelo Brasil levando ao público uma experiência cênica construída a partir das memórias, influências e faixas que marcaram a carreira de Moraes. No espetáculo que chega ao Recife - que, assim como acontece com "Anunciação", é a segunda parada da turnê -, a plateia é convidada a mergulhar no universo de um dos artistas que ajudou a reinventar os caminhos da música popular brasileira, desde os tempos dos Novos Baianos.

“Entendi que, para viver a riqueza da obra de Moraes no palco, a gente precisaria trazer, junto com ele, o povo que inspirou e eternizou sua criação, porque se trata de um artista da massa. Ele foi um cidadão brasileiro que nos falou de liberdade, democracia, amor e alegria", destaca a diretora Ana Paula Bouzas. "Moraes Musical Moreira é nossa declaração carinhosa a esse assombro criativo que ele continua sendo, é o nosso desejo de partilhar a presença de um patrimônio musical brasileiro em nossos corpos, de celebrar a magnitude de quem viveu em estado constante de inspiração, numa conexão profunda, sincera e refinada entre a sua arte e seu povo”.
Já o Teatro de Santa Isabel vai testemunhar, de quinta (3) a domingo (6), as trapaças de um boêmio que faz de tudo para atrapalhar o casamento da amada no espetáculo Il Campanello, do italiano Gaetano Donizetti (1797-1848). A montagem, da 25 Produções, é a primeira totalmente em português da tradicional ópera bufa, já apresentada em diversas línguas. Tanto os recitativos (parte falada) quanto as músicas foram traduzidas pelo maestro e professor da UFPE Sérgio Dias, diretor musical do projeto.

O enredo de Il Campanello, também chamado de Il Campanello di Notte (A Campainha da Noite) começa com o casamento de Serafina, interpretada por Anita Ramalho e Virginia Cavalcanti, que se alternam nas apresentações, com o farmacêutico Don Aníbal (Anderson Rodrigues e Matheus Alvarenga). Com ares regionais, a festa tem o convencional bolo de noiva, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco, e figurinos com traços carnavalescos, desenhados por Marcondes Lima, diretor cênico e de arte.
A esperada noite de núpcias, entretanto, se transforma em uma conturbada sequência de pacientes necessitados dos cuidados de Don Aníbal, sob o resguardo de uma lei segundo a qual os farmacêuticos não podem deixar de prestar auxílio, independentemente da situação. Essas pessoas, na verdade, são disfarces do audacioso Enrico (Luiz Kleber Queiroz e Calebe Faria), primo de Serafina. Ex-namorados, eles ainda mantêm a paixão.
“Ópera não deve ser vista como uma arte elitizada, muito pelo contrário. Il Campanello tem um texto acessível, engraçado e adequado para jovens e adultos. Com certeza, é uma opção excelente para quem quer conhecer o gênero”, defende o diretor artístico Matheus Soares, que assina a produção geral, ao lado de Yasmin Menezes. A montagem conta com 80 artistas, que estão ensaiando desde maio para não sair do tom.
E no dia 12, a onda de musicais segue com uma nova apresentação do musical Francisco — Um Instrumento de Paz, que volta ao palco do Teatro do Parque, às 16h, depois de conquistar três prêmios no 32º Janeiro de Grandes Espetáculos, o maior número da edição. A sessão é duplamente especial, pois celebra um ano da estreia da peça e também marca os 800 anos da morte de Francisco de Assis, italiano tornado um dos santos mais populares da Igreja Católica, morto no ano de 1226, no dia 3 de outubro, data em que é reverenciado no calendário romano.

Com texto e direção geral de Roberto Costa, Francisco — Um Instrumento de Paz é um projeto que surgiu na adolescência do ator, diretor e produtor cultural, quando conviveu com um frade franciscano. A montagem narra a conversão de Giovanni di Pietro di Bernardone no homem que viria a ser conhecido no mundo como Francisco de Assis. Biografado como um jovem mundano, filho de burgueses da cidade de Assis, onde nasceu, Giovanni, que desde a infância era chamado de Francesco, transforma-se radicalmente, passando a levar uma vida lastreada na humildade e dedicada à prática do que preconizam os evangelhos bíblicos, quando funda a Ordem dos Frades Menores - os chamados franciscanos - com votos de pobreza, obediência e castidade. Tudo isso, claro, embalado pela música, sob a direção da maestrina Hadassa Rossiter, do Conservatório Pernambucano de Música.



























































































































































































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