Conto inédito de Lula Arraes

3 set 2026 | 0 comentários

Foto Brandi Redd/Unsplash

Rosa

Nasci arrodeado de gente. Apesar de só ter um irmão a gente enchia a casa de amiguinhos. Nossos pais gostavam. Compravam coxinhas e Coca-Cola para o lanche.

Na universidade, começando a escrever, tinha a necessidade de me cercar de amigos e amigas do curso de Letras para conversar sobre  literatura. Indicávamos livros uns aos outros, depois passamos a ler nossos escritos entre nós.

Com o tempo fui me afastando, preferindo a leitura, a necessidade de ler sem perder tempo. Há muita coisa para ler para se tornar escritor.

Escrevia e lia. Não fazia outra coisa. Minto. Vivia de uma bolsa de doutorado a escrever uma tese sobre Guimarães Rosa. Foi com ele que descobri que para ser escritor era preciso ler muito mas também viver muito. Era tarde demais. Não sabia mais conviver com as pessoas como antigamente. Tornara-me um ser esquisito. Mergulhado nos livros e nas folhas brancas que enchia de palavras. As raras pessoas que frequentava tinham o mesmo modo de vida. Diferente de antes, só falávamos dos livros que líamos e nunca do que escrevíamos.

Já faz um tempo que essa nova vida começou.

Me sinto bem.

No meu computador há centenas de páginas escritas que não consigo mostrar a ninguém. Talvez por excesso de humildade, talvez por excesso de vaidade.

Quando releio essas páginas não me reconheço, nem reconheço os mundos que quis criar.

Tenho vontade de apagar tudo e recomeçar do zero, mas não tenho coragem.

Faltam a vida vivida e a vida estudada. A alma do negócio. Na minha tese, que defendi com louvor, falo tanto de Rosa e suas longas incursões no profundo sertão mineiro para aprender a língua do povo de lá. Como antes ele havia estudado dinamarquês só para ler Kierkegaard no original.

Rosa teve uma vida curta, morreu aos 59 anos e eu não me conformo com isso.

E eu tenho que tomar uma atitude. Apagar o que escrevi e recomeçar a minha vida como antes.

Perdi muito tempo. A partir de agora terei que escrever com medo de não ter tempo de escrever o que tanto quis. Escrever foi a única coisa que encontrei para dar algum sentido à minha vida. Talvez tenha deixado passar essa oportunidade. Como não sei fazer outra coisa talvez consiga.

Deixei as páginas brancas no computador e recomecei do zero. Se a morte me alcançar antes de acabar meu projeto, meu livro, que espero grande, me pegará feliz.

Hoje organizei uma festa na minha casa e convidei meus velhos amigos, que, com surpresa, aceitaram com alegria os convites. Alguns são escritores consagrados. Fico muito feliz com isso. O modo de vida faz o escritor. Maior ou menor.


Lula Arraes é médico e escritor

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