Marcelo encara o câncer em livro com humor

10 set 2026 | 0 comentários

Foto Simone Vilar

Por Paulo André Leitão

O escritor Marcelo Mário de Melo tem 82 anos e há 3 convive com um câncer que começou pequeno e virou metástase. O tratamento, como se sabe, é devastador e frequentemente leva o paciente à depressão. Marcelo tem passado por todas as dores que a doença impõe, mas não se rende. Ao contrário: do sofrimento, fez brotar o livro Poesia, Humor, Doença, Velhice e Morte - Pandemia e mais, cuja pré-venda está ajudando a custear as despesas de sua luta pela vida.  

Revista Araçá: Como surgiu o livro? Foi um projeto que você arquitetou ou ele foi nascendo aos pouquinhos?

Marcelo Mário de Melo: Eu sempre digo que não faço literatura, faço literavida. É como coceira: você não sabe onde vai dar, mas, quando dá, você coça. O meu processo poético é esse, de escrever sobre tudo na vida. Uma coisa me motiva, algo que estou vivenciando, um sentimento, uma fantasia do momento ou uma situação contra a qual protesto. Como passei a viver essa situação a partir de 2023 — o câncer, internamentos etc. — e como a minha vida é muito movida pelo fio da poesia e pelo fio do humor, comecei a escrever naturalmente dentro do hospital mesmo. Muita coisa eu escrevi no hospital.

Você se lembra das primeiras coisas que escreveu?

As primeiras coisas sobre esse assunto formaram a Família Hospitalar, baseada nas caricaturas que vejo dentro do hospital. Criei os personagens: Hospitalino, o cara que gosta de hospital; Enfermeirosa, aquela paciente que fica discutindo com o médico baseada no que lê no Google. Ela fica tão abarrotada de informações que arranja uma estagiária, a Enfermista, que vive lendo bula de remédio, visita hospitais e, quando é apresentada a alguém, não diz "muito prazer", diz "muito Plasil". Tem também o sadomasoquismo no meio, uma personagem que ninguém da família visitava, até que ela ficou com câncer. Quando adoeceu, todo mundo começou a visitá-la. Agora, ela não quer mais ficar boa, porque senão vai voltar a ficar isolada do mundo; ela quer prolongar a doença. Outro personagem é o Doutor Especialino, aquele médico que só cuida de um pedacinho específico. Ele não considera um exame de sangue ou outra coisa que possa interferir, não tem a visão de conjunto do paciente.

Super Especialista.

Super Especialista. Ele vive com viseiras. Todo esse livro foi construído com três fios: o mórbido, que é o humor em cima da doença; o geronto-humor, focado na idade; e o mortuário, abordando a questão da morte. Aproveitei as situações propriamente hospitalares, critiquei essa cretinice de chamar a velhice de "melhor idade", e o tabu que fazem com a morte. A vida é como uma folha: nasce bem verdinha, na maturidade vai amarelando, na velhice resseca e um dia cai. Eu já estou na fase da folha seca.

Quando você sentiu que entrou no início dessa fase de folha seca? Com que idade?

Comecei a sentir a partir dos 80 anos, inclusive por conta da doença. Quando o câncer me pegou, há três anos, eu estava com 78 para 79. Um cara de 80 anos que não pensa na morte é um alienado. Aos 80, tem que se pensar na morte, mas não de forma ansiosa. Pelo contrário, é para tentar esticar a vida ao máximo possível dentro dos limites da idade, tendo consciência de que se está no corredor da morte. Passei a tratar isso de maneira humorística. O que mais resta fazer?

Foi a doença que fez você se dar conta da idade que tem?

Foi mais a doença, porque eu nunca achei que tinha a idade que tenho. Eu andava de bicicleta, ia para tudo que era manifestação, fazia exercícios em casa, nunca fumei na vida, nunca bebi de farra. Eu ficava tirando onda com meus amigos. Quando nós nos encontrávamos, os velhinhos da minha idade, eu dizia: "Vamos fazer a fila do corredor da morte aqui. Quem tem ponte de safena?". E eu era o super velhinho.

Quantos amigos seus já morreram?

Muita gente. Muita gente mesmo. A maior perda que temos na velhice é a morte dos amigos. Pessoas com quem você tem grandes vivências e muitos temas para discutir. O David Capistrano, por exemplo, morreu mais novo do que eu, com 54 anos. Eu tinha uma pauta em comum com ele desde os anos 1960, quando ele morava aqui. Fazíamos parte da base dos 25 jovens comunistas de Pernambuco. Eu entrei com 17 anos, ele entrou com 14, já era comunista de nascença por causa dos pais. Quando ele morreu, perdi uma grande pauta de assuntos; fiquei sem ter com quem discutir.

Com o Cândido Pinto de Melo, eu também tinha uma pauta vastíssima. O mesmo ocorreu com o Bruno Maranhão. São vivências em comum, livros que lemos, discussões teóricas... Mesmo quando divergíamos, havia uma pauta comum.

A morte dos seus amigos pesou muito mais para você do que as preocupações com a própria morte?

Exato. Foi então que fui pensando... 80 anos. Pensei: "Bem, eu estou no corredor da morte. Agora eu quero espichar esse corredor ao máximo". Vou ficar deprimido porque vou morrer? Não.

Vamos voltar, então, a essa sua perspectiva sobre a idade. Como você se situa hoje, passada essa fase inicial da doença? Como se sente aos 82 anos?

Eu me sinto menos mal porque um cara que tem câncer não pode dizer que está bem. É efeito colateral aqui e acolá, transfusão de sangue o tempo todo. O livro vai sair tratando dessas coisas todas, e, na segunda edição, já vou ter que incluir a Transfusina, uma mulher que entrou na minha vida; a Imunilda, representando a imunidade que baixa; e o Colesterolto, que é o efeito colateral. Preciso escrever sobre esses três. Passei a ver a morte como uma possibilidade concreta: estou no corredor da morte. Mas, no que depender de mim, quero um corredor bem comprido. O que eu posso fazer, e que a ciência permite, eu faço. Medicação? Exercício físico? Alimentação para recuperar o peso? Eu tinha 65 quilos, caí para 53, e já estou com 60. Chegando aos 65, está ótimo.

E a cabeça ajuda muito?

Ajuda muito, porque o grande problema da pessoa depressiva, quando está doente, é que ela fica coçando a ferida o tempo todo. Não vou dizer que câncer é gripe, não é um resfriado. Porém, estou com câncer, o que eu posso fazer? O que está ao meu alcance eu faço. Tenho meus amigos me visitando muito aqui agora, e brinco que isso é a mordomia cancerosa. Antes de eu ter câncer, demoravam a vir, só apareciam de vez em quando. Agora não, todo mundo marca na agenda para vir aqui em casa.

Mas você não vai cair na situação daquela personagem que mantém a doença para ter benefícios?

Não, aproveitar os bônus da doença, não. O hospital é uma desgraça. O David Capistrano, que era médico, dizia: "Hospital é um lugar para pegar doença". Eu não vou entrar em depressão. Tenho a vacina antidepressiva que eu criei, que é o Humorio.

A receita está no livro?

Está no livro, no poema Humorio. Não vou brigar com a realidade. A única ditadura que aceito na vida é a ditadura da realidade. A realidade é essa: tem câncer? Tem. Tem efeito colateral? Tem. Agora estou com uma fragilidade no andar, nas pernas, uma degenerescência neuromuscular. Por isso, faço uma hora e quarenta de exercícios todos os dias. Se chegar a um ponto em que eu tenha que usar bengala, uso bengala. Se tiver que usar cadeira de rodas, quero uma daquelas com motorzinho, que a gente vai dirigindo. Enquanto eu puder ler e escrever, sigo em frente. Houve um momento em que fiquei sem controle das mãos, mal conseguia segurar um copo, não podia teclar nem usar o mouse. Com dois meses de exercícios, recuperei. Voltei a teclar e a usar o mouse. É isso, você vai resistindo, fazendo o que pode para esticar a corda.

Marcelo, esse seu livro tem alguma coisa de autoajuda?

Não tenho nada contra a autoajuda quando ela tem o sentido de orientar as pessoas a saírem do pessimismo depressivo para algo mais realista. Otimismo abstrato, não. É preciso tomar pé da realidade e ter uma atitude de resistência diante da adversidade. Nesse sentido, o livro pode ter uma função de autoajuda. Se ele tiver esse efeito, ficarei muito satisfeito.

Mas não foi com esse propósito que você escreveu o livro, certo?

Foi não. Escrevi porque o escritor é tocado por algo e, a partir disso, escreve. Como tenho esse lado humorístico, uno o poético ao humor. O meu lema é: "Poesia, prazer, amizade e humor, na conjuntura que for. E a cada conjuntura ruim, sempre se faz uma piada melhor". Sou discípulo do Barão de Itararé, Apparício Torelly, que era um comunista humorista — uma qualidade rara. Na década de 1930, ele escreveu um artigo contra os integralistas; eles invadiram a redação, o cobriram de pancadas e o obrigaram a engolir o jornal. Quando foram embora, ele colocou uma placa na porta: "Entre sem bater". Esse é o humor do Barão.

O que tem de importante para você no fato de o livro também ajudá-lo financeiramente nesse momento?

Como não tenho plano de saúde, eu me trato no IMIP. Mas é preciso comprar muitos medicamentos e nutrientes para compensar o que se perde com a quimioterapia, que eu fazia mensalmente em 2023 e agora faço a cada quinze dias. Meus amigos organizaram uma vaquinha inspirada no antigo Socorro Vermelho dos comunistas. Na época, se um companheiro ficava doente ou era demitido, o Socorro Vermelho entrava em ação.

Sim, mas quem não for comunista pode ajudar?

Pode, o Socorro Vermelho fica mais amplo, pode ficar até cor-de-rosa! A brincadeira da origem é o Socorro Vermelho, mas o livro vem como uma forma de ajudar no tratamento. A arrecadação vai para uma conta que não movimento; quem administra são a Isa e o Marcelo Santa Cruz. O dinheiro é destinado exclusivamente à minha saúde.

É uma autoajuda no sentido mais amplo da palavra, não é?

Exato. Como eu faço literavida, a literatura também serve para me ajudar materialmente nisso.

Marcelo, vale a pena viver? Vale a pena resistir e ter tanta persistência diante de tantas agruras e dificuldades na vida?

Vale demais. Havendo qualquer chamazinha de vida, já vale a pena. Porque você pode criar, escrever, cultivar a afetividade e o ciclo de amigos. A vida sempre vale a pena. O que acaba com a pulsão de vida é a depressão, quando você fica remoendo alguma dificuldade, algum atropelo da vida pelo qual todo mundo passa — principalmente os atropelos de uma doença grave. Mas se entregar a isso é um absurdo.


Como adquirir

Poesia, Humor, Doença, Velhice e Morte - Pandemia e mais
Marcelo Mário de Melo
R$ 70 | Recife (coleta no dia do lançamento)
R$78 | Demais localidades, envio pelos Correios
PIX: marcelomariodemelo@gmail.com
Os comprovantes deverão ser enviados para Isa Varejão e Marcelo Santa Cruz pelo 81 99971-9354

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