Por Pedro Cunha
México, 1968. No pódio dos 200 metros rasos dos Jogos Olímpicos, os norte-americanos Tommie Smith e John Carlos abaixaram a cabeça e ergueram os punhos cobertos por luvas pretas. Diante de milhões de pessoas, transformaram uma cerimônia esportiva em uma das imagens mais marcantes da luta contra a discriminação racial. Foram suspensos da equipe norte-americana e tiveram de deixar a Vila Olímpica, mas o gesto ultrapassou décadas com uma mensagem que permanece atual: ocupar um espaço de visibilidade também pode ser uma forma de reivindicar quem tem direito a ele.
Quase seis décadas depois, ocupar esses espaços continua sendo parte da afirmação negra, mas a discussão avançou. Não se trata apenas de quem aparece no palco. Importa saber quem produz, quem decide, quem é contratado e para onde vai o dinheiro quando a cultura negra movimenta públicos e negócios. É com essa discussão que o AFROPUNK Experience chega pela primeira vez ao Recife, neste sábado (12), na Universidade Federal de Pernambuco.
O festival desembarca em uma cidade onde a presença negra abrange a música, a dança, a religiosidade, a estética e a formação cultural. Da ciranda aos maracatus e afoxés, do Manguebeat às produções que nascem hoje nas periferias, há uma história que antecede qualquer grande evento que chegue à capital pernambucana. Para o AFROPUNK, portanto, estar no Recife significa também reconhecer quem já constrói essa cena.
Coordenadora da IDW Company, realizadora do evento, Ágatha Ferreira explica que a proposta é estabelecer conexões com os territórios por onde o projeto passa. “Quando a gente chega a uma cidade, não pode simplesmente trazer um evento pronto e colocar ali. É preciso entender quem produz, quem cria, quem movimenta aquela cena. Sempre tem os artistas locais e a gente faz essa mistura com artistas de outras cidades”, afirma. "Quando chegamos a Pernambuco, as perguntas são: o que representa Pernambuco? O que é a raiz negra daqui? Temos o Manguebeat, temos toda essa história, mas também precisamos olhar para quem está produzindo agora, para quem está criando novos sons e movimentando essa cultura hoje”.

Quem aparece e com quem o dinheiro circula?
Nascido nos Estados Unidos a partir da discussão sobre a presença negra na cena punk e alternativa, o AFROPUNK cresceu, atravessou fronteiras e incorporou outras linguagens. Música, moda, comportamento, arte e ancestralidade passaram a dividir espaço em um movimento que colocou a experiência negra no centro da narrativa.
Mas visibilidade, sozinha, não resolve uma questão histórica. Quando a cultura negra ocupa grandes palcos, atrai marcas, vende ingressos e movimenta uma cadeia de serviços, quem participa economicamente desse movimento? Quem aparece, quem decide e quem é remunerado? Ágatha resume a discussão: “Tem que dar voz à comunidade negra, mas tem que fazer o dinheiro chegar na comunidade negra.”
É uma diferença importante. Representatividade pode estar no artista diante do público, mas protagonismo também passa por quem trabalha longe dos refletores: produtores, técnicos, fornecedores, criadores e outros profissionais envolvidos na realização de um evento. Colocar pessoas negras nesses espaços significa fazer com que a valorização cultural alcance também trabalho, oportunidade e renda.
A circulação do AFROPUNK pelo país faz parte dessa lógica. Depois de ocupar diferentes cidades brasileiras, o projeto busca não restringir suas ações aos grandes centros do Sudeste. “A gente tem a premissa de tentar e fazer todos os esforços para não concentrar tudo no eixo Rio-São Paulo”, diz a gestora.
No Recife, essa conversa encontra uma produção cultural negra que não começou agora. A cidade é território de maracatus, afoxés, cirandas, coco, hip-hop, música periférica e experimentações que cruzam referências africanas e contemporâneas. Também é o lugar onde surgiu o Manguebeat, movimento que projetou internacionalmente uma sonoridade construída a partir do encontro entre tradições locais e linguagens urbanas.
“Quando a gente olha para Pernambuco, encontra uma diversidade cultural muito grande e uma presença negra que atravessa diferentes expressões. O Manguebeat é uma referência importante, mas existe uma produção que continua se renovando, principalmente a partir das periferias e de uma nova geração de artistas. O nosso interesse é entender essas raízes, mas também olhar para o que está sendo criado agora, para os novos sons e para quem está movimentando essa cena”, pontua Ágatha.
De Lia de Itamaracá à nova geração
A programação traduz esse encontro de tempos e linguagens. Um dos momentos mais simbólicos reúne Lia de Itamaracá e Daúde. Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2005, Lia carrega uma trajetória ligada à ciranda e a uma tradição popular que atravessou gerações, enquanto Daúde construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre música brasileira, referências afro-brasileiras e sonoridades contemporâneas.
Em outra ponta está Ebony, um dos nomes da nova geração do rap nacional. Linn da Quebrada leva ao palco uma produção que cruza música, performance, identidade e provocação.

A cena pernambucana também ocupa a programação com o Barbarize, formado por Bárbara Vitória, a Babi, e YuriLumin, artistas da Comunidade do Bode, no Pina. Completam o line-up DJ Boneka e o produtor e beatmaker Marley no Beat, aproximando rap, afropop, música eletrônica e outras vertentes urbanas.
A mistura entre ancestralidade e presente ajuda a explicar por que a estreia do AFROPUNK no Recife pode ser lida para além de mais uma data no calendário de grandes eventos. O festival chega a um território onde a cultura negra não precisa ser descoberta. Ela já está nas ruas, nos terreiros, nas comunidades, nos palcos, nos tambores e nos beats. A questão é quanto espaço seus protagonistas encontram quando os holofotes se acendem — e também quando eles se apagam.
“Não queremos que essa presença aconteça apenas no dia do evento. Quando o AFROPUNK chega a um território, a ideia é também fortalecer quem já está ali, criar conexões e abrir possibilidades para que artistas e profissionais negros ampliem seus espaços. A cultura negra já movimenta essas cidades todos os dias. O que precisamos é fazer com que as oportunidades, o reconhecimento e os recursos também cheguem a quem faz essa cultura acontecer”, reforça Ágatha.
Se, em 1968, dois punhos erguidos no México transformaram um pódio em território de reivindicação, décadas depois a disputa por espaço ganhou outras camadas. Já não basta ser visto: é preciso participar das decisões, das oportunidades e da riqueza que a cultura negra produz. Neste sábado, no Recife, o AFROPUNK ocupa o palco para lembrar que protagonismo não termina quando as luzes se apagam. Entre cirandas, rimas e beats, permanece uma questão maior que qualquer festival: quem faz a cultura pulsar também precisa ter poder sobre os caminhos que ela abre.




































































































































































































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