Por Paulo Cunha
Filmes adormecem, de vez em quando. Às vezes por pouco tempo, outras vezes por décadas. Muitos deles, infelizmente, chegam a morrer durante o sono e se perdem para sempre. Quando Luciana, a comerciária, de Mozart Cintra, voltar às telas neste tenso setembro pré-eleitoral - o filme será exibido no Cinema da Fundação, no próximo dia 20 -, estará acordando de um cochilo de mais de cinquenta anos. Realizado em Pernambuco, em 1975, o longa foi exibido no ano seguinte, no Recife (basicamente, sessões de cabine, para a imprensa e convidados), em São Lourenço da Mata e em Arcoverde — sempre de maneira precária e isolada, a partir do esforço do diretor de apresentar seu filme ao público. Depois mais nada.
Há muitas maneiras de explicar o apagamento de Luciana, a comerciária. Vamos começar pela mais delicada: para os críticos que o viram nas sessões de 1976, o filme era extremamente precário, pra dizer o mínimo. Os textos da época faziam piruetas para não afirmar que era simplesmente ruim.
Fernando Spencer, crítico do Diario de Pernambuco, defensor absoluto de qualquer cinema feito em Pernambuco, e que já informava desde 1975 dos avanços das filmagens de Mozart Cintra, escreveu, em junho de 1976:
“Em sessão especial vimos a fita. É sem dúvida um trabalho primitivo como realização cinematográfica. Dentro dos limitados recursos que teve nas mãos, não poderia fazer milagre. A intenção do Mozart é louvável. Não quis apelar para o atual esquema das fitas nacionais. Fugiu inteiramente ao binômio cama/violência, partiu para a realidade social.”
Em outro trecho, Spencer defende o “esforço” do realizador na “batalha do longa-metragem”, sua “força de vontade e honestidade de propósitos”.
Celso Marconi, do Jornal do Commercio, fala do filme em setembro de 1976, ressaltando as dificuldades enfrentadas por Mozart Cintra para distribuir Luciana, a comerciária (numa de suas tentativas de exibir o longa no Cine Astor, a sessão acabou cancelada):
“O cineasta Mozart Cintra, que ainda não conseguiu nem mesmo uma sessão especial para exibir o seu Luciana, a comerciária, um filme ‘udigrudi’ do Recife, está reunindo uma comissão com o pessoal que faz cinema, em qualquer dos seus setores, para ir falar com o governador Moura Cavalcanti, a fim de saber como estão os entendimentos entre o Governo do Estado e a Embrafilme, visando à instalação ou início de atividades do falado Pólo Nordeste Cinematográfico. Tem muita gente por aí aguardando que o convênio seja assinado para entrar com propostas de produção. Mozart Cintra considera que ou o Governo ajuda o pessoal cinematográfico ou nem daqui a 200 anos teremos um cinema em bases industriais em Pernambuco.”
Há, no comentário de Celso Marconi, um dado que merece atenção: o crítico classifica o longa como “udigrudi”. Na verdade, essa referência ao cinema experimental brasileiro dos anos 1970 foi utilizada pelo próprio Mozart Cintra nos créditos de abertura de Luciana, a comerciária. Um dos letreiros avisa, sem modéstia: “Um filme ‘urderground’. Um clássico de Mozart Cintra.” O diretor usou o termo em inglês, trocado por Celso Marconi para o neologismo brasileiro “udigrudi”, adaptação fonética e irônica, associado na época aos filmes do Cinema Marginal, que ocorreu no Brasil entre 1968 e 1973, com sua “estética do lixo” adotada na Boca do Lixo, em São Paulo, e na produtora carioca Belair, em filmes geniais de Julio Bressane, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, entre outros. Reflexos desse cinema radicalmente experimental, anarquistas, aparecem posteriormente no super-8 da Bahia e do Recife.
Mozart Cintra não tinha nada a ver com o Cinema Marginal. Fora sobretudo ator, desde os anos 1950. Apareceu em dez longas, a partir de Contrabando (1954-1957), de Eduardo Llorente; atua posteriormente em Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos; está no elenco da chanchada tardia Um candango na Belacap (1961), de Roberto Farias, e atua de novo sob a direção de Nelson Pereira dos Santos em Mandacaru Vermelho (1961). Segue como ator até meados dos anos 1970. Nenhum dos filmes em que atuou tem a mais remota relação com o cinema experimental. O termo dos créditos, adotado pelos críticos, parece muito mais ligado a uma tentativa de justificar problemas técnicos e deslizes estéticos do que outra coisa.

A passagem de Mozart Cintra da interpretação para a direção foi longa e difícil. Desde o momento em que se instala no Recife, nos anos 1960, notícias na coluna de Fernando Spencer dão conta de que ele elaborou e tentou produzir pelo menos três filmes: Mocambo; Um tango para Teresa; e Cangaceiro ama e morre. Há registros de tentativas de levantar financiamentos e eventualmente até de início de filmagens. Mas nenhum dos três projetos avançou.
Outra forma de explicar o apagamento de Luciana, a comerciária tem a ver com o contexto da produção de cinema em Pernambuco nos anos 1960-1970. Naquele período, praticamente a totalidade dos recursos financeiros do cinema brasileiro estava concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo. As causas dessa hiperconcentração brutal de dinheiro para a cultura estão ligadas ao próprio modelo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil e a um pacto das elites, que estrangulava e mediocrizava as regiões menos industrializadas (do que São Paulo) e mais afastadas do poder político (ainda concentrado no Rio de Janeiro). Como resultado disso no campo cinematográfico, coube à periferia da periferia — o Nordeste, por exemplo —, praticar apenas o cinema documental, os filmes de curta-metragem, a crítica política e os experimentalismos.
É nesse sentido que Fernando Spencer elogia a coragem de Mozart Cintra. De realizar um longa-metragem em 35 milímetros em Pernambuco, apesar das dificuldades que caracterizavam um lugar sem política cultural e sem condições tecnológicas para a produção audiovisual. Mozart Cintra falece um ano depois de suas tentativas de exibir Luciana, a comerciária. E seu longa-metragem, filmado em preto e branco a duríssimas penas, caiu no seu sono de meio século.

Caso não houvesse qualquer outra razão para resgatar o filme de Mozart Cintra, apenas esta bastaria: seu filme foi uma tentativa de realização cinematográfica num lugar de onde foram retiradas todas as condições de produção. Faltava tudo: recursos financeiros, apoio governamental, técnicos especializados, equipamentos profissionais, atores com experiência em cinema. E mesmo assim ele fez. Faz recordar o que Paulo Emílio Salles Gomes chamava de nossa "incompetência criativa em copiar", para explicar que nossos cineastas sempre seriam originais por não conseguir repetir os padrões técnicos e estéticos do cinema estrangeiro. Paulo Emílio se referia, por exemplo, às chanchadas como a demonstração de uma qualidade específica do cinema do Brasil. Talvez o filme Luciana, a comerciária, nas suas imperfeições mais gritantes. possa ser compreendido a partir de uma chave semelhante.
Há pelo menos mais uma outra maneira de observar o apagamento de Luciana, a comerciária: seu quase desaparecimento como objeto fílmico. E vale salientar, desde logo, a grandeza do trabalho da Cinemateca Brasileira e de seus técnicos especializados em preservação. A instituição e seus especialistas salvaram o longa de Mozart Cintra do sono eterno.
A família Cintra teve o cuidado de depositar na Fundação Joaquim Nabuco os materiais de Luciana, a comerciária: eram rolos de 35mm em suporte de acetato, um material que entrou depois em desuso (hoje as películas usam base de poliéster). Há um grave risco associado à película em acetato, chamado de “síndrome do vinagre”. É um processo de deterioração que se instala e que dissolve aos poucos o material. É chamado de “síndrome do vinagre” por deixar as latas de película emanando um cheiro aproximado do vinho azedo. Boa parte do material original do longa de Mozart Cintra está afetado pela síndrome, processo irreversível. O esforço da Cinemateca Brasileira começou, em 2016, por transferir os rolos em acetato para nova cópia em poliéster. Posteriormente foram restaurados os rolos com as pistas sonoras. Finalmente, em 2026, tudo foi digitalizado em 4K.
Toda a produção audiovisual deve ser preservada. Dos considerados “clássicos” às mais singelas imagens domésticas ou familiares. Nessas imagens estão modos de compreensão da sociedade que outros formatos jamais conseguirão repetir. São espelhos, são modos de existência que aparecem em cenas filmadas. É fundamental, portanto, celebrar o despertar de Luciana, a comerciária. Para ver o modo como Mozart Cintra tornou seus sonhos em cinema; para ver o quanto as chamadas imperfeições do longa podem nos ajudar a entender melhor o cinema feito em Pernambuco; para seguir adiante, sonhando, fazendo novos filmes — mesmo aos trancos e barrancos.




































































































































































































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