<i>Anastácia</i> é criação de um recifense    

23 jul 2026 | 0 comentários

A ópera Anastácia, de Armando Lôbo, foi encenada no Teatro de Santa Isabel. Foto Divulgação

Por Pedro Cunha

Durante séculos, a ópera foi cercada por um ritual quase imutável. Cortinas pesadas, plateias silenciosas, partituras eruditas e a ideia — ainda resistente — de que aquele universo pertence a poucos. Mas Anastácia nunca caberia nesse palco estreito. Mulher marcada pelo encarceramento, pela culpa e pela exclusão social, ela atravessa corredores, rompe grades simbólicas e agora também escapa das convenções da própria linguagem operística. Em vez de surgir apenas diante de uma plateia, ganha corpo nas páginas de uma revista impressa, onde fotografias substituem cenários, balões conduzem os diálogos e um QR Code faz a música emergir do celular do leitor. Assim nasce a primeira foto-ópera registrada no mundo, criação do compositor pernambucano Armando Lôbo, uma obra que desafia não apenas a forma de fazer ópera, mas também a ideia de quem tem direito de consumi-la.

Depois de estrear em janeiro deste ano no Teatro de Santa Isabel, no Recife, a obra foi transformada em uma publicação inspirada nas fotonovelas que dominaram as bancas de revistas brasileiras nas décadas de 1970 e 1980. Com 32 páginas, a revista também incorpora elementos de histórias em quadrinhos e seções típicas das antigas publicações de entretenimento, como entrevistas, horóscopo, receitas culinárias e palavras cruzadas. Além de funcionar como uma obra independente, o material serve como libreto impresso para as apresentações do espetáculo. A direção de arte, o design, a cenografia e o figurino são assinados por Marcelo Coutinho, responsável por construir a identidade visual que aproxima a ópera do universo das clássicas fotonovelas.

A revista tem dupla finalidade e seu conteúdo é diversificado. Reprodução

Antes de afirmar que estava criando um novo gênero, Armando conta à Revista Araçá que a ideia nasceu quase por acaso e decidiu pesquisar. “Fiz um extenso estudo a respeito e realmente não há nenhuma ópera neste formato no mundo”, salienta. "Eu não costumo repetir formatos. Cada ideia precisa representar um desafio. Sem esse caráter de aventura, a arte perde parte da graça. Um dia uma fotonovela caiu nas minhas mãos e imediatamente pensei: se existe uma dramaturgia fotografada, por que não poderia existir uma dramaturgia operística, com o áudio sendo acessado por QR Code?’"

Quando a ópera deixa de pedir licença

"Anastácia" parece fazer uma provocação ao próprio universo da música de concerto. Ao vestir a roupa das antigas fotonovelas — talvez um dos produtos culturais mais populares do Brasil do século passado — a obra aproxima um gênero frequentemente associado ao elitismo de uma estética construída justamente para circular entre o grande público.

Armando Lôbo conta que essa aproximação não é apenas estética, mas conceitual. "A combinação com outras linguagens ajuda a democratizar o gênero”, reflete Lôbo, acrescentando que a crítica também alcança parte da produção contemporânea. "Os compositores brasileiros de música de concerto, em geral, demonstram pouca brasilidade em suas abordagens musicais. Eu faço questão de que minhas óperas ressoem a experiência contemporânea e a perspectiva cultural do país."

A defesa de Armando é que a ópera jamais deveria funcionar como uma linguagem fechada. "Ela (a ópera) é herdeira da tragédia: reúne teatro, literatura, dança, música, mito e ritual. Não tem o direito de ser restritiva." Essa lógica aparece na própria construção da revista, que mistura rock, música nordestina, quadrinhos, literatura, fotografia e recursos digitais sem qualquer preocupação em respeitar as fronteiras entre o erudito e o popular.

A principal inspiração estética da revista "Anastácia" são as fotonovelas. Fotos Geyson Magno e Leo Caldas

A construção visual de "Anastácia" também foi guiada pela praticidade da produção. As fotografias foram realizadas na Casa da Cultura de Pernambuco, edifício que funcionou como presídio até a década de 1970 e que hoje abriga espaços dedicados à cultura popular. A locação foi escolhida por concentrar, em um único lugar, todos os ambientes necessários para a narrativa, permitindo que as imagens fossem produzidas em apenas um dia. 

No entanto, a ambientação da obra foi construída antes mesmo de as câmeras entrarem em cena. Para aprofundar a dramaturgia e compreender o universo retratado, a equipe visitou a Colônia Penal Feminina Bom Pastor e o Instituto Fênix, dedicado à reabilitação de ex-detentas. Foram esses encontros, mais do que o cenário histórico, que ajudaram a moldar o olhar da obra sobre o encarceramento feminino e suas consequências.

"'Anastácia' é uma tragédia contemporânea em que quem sucumbe não é apenas o herói, mas a própria realidade. A obra possui várias camadas. Algumas pessoas ficam na superfície das fotonovelas. Outras mergulham nas referências filosóficas e sociais. O importante é que todos consigam estabelecer algum tipo de relação com ela", afirma Armando.

O desafio de criar um formato inédito

Produzir simultaneamente um espetáculo e uma revista exigiu criatividade de Armando e um intenso exercício de adaptação. Concebido originalmente como uma foto-ópera, o projeto esbarrou nas limitações dos editais de incentivo à cultura, que não contemplavam esse formato inédito. Para viabilizar a iniciativa, foi necessário inscrevê-la também como espetáculo cênico. Com um orçamento reduzido, a equipe precisou otimizar recursos para entregar duas obras distintas — a montagem teatral e a publicação impressa — a partir de um único financiamento, transformando as restrições financeiras em parte do próprio desafio criativo.

Mesmo inaugurando um formato inédito, Armando não acredita que a foto-ópera se transforme rapidamente em tendência. "É uma produção cara. Talvez eu faça outra algum dia, provavelmente em ambiente digital, mas não gosto de repetir formas."

No fim, talvez a maior ruptura de Anastácia não esteja na tecnologia nem no QR Code. Ela acontece quando uma ópera aceita dialogar com aquilo que durante muito tempo foi considerado cultura menor. "Ao colocar lado a lado a solenidade da música de concerto e a linguagem popular das fotonovelas, a obra desmonta uma velha hierarquia cultural e lembra que inovação nem sempre nasce da criação de algo completamente novo", conclui o autor. É dessa combinação improvável que surge uma constatação: linguagens que nunca deveriam ter sido separadas podem, enfim, conversar.


Pedro Cunha é jornalista.

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