Por Paulo André Leitão
Clarice Lispector, a universal escritora, morou no Recife dos 4 aos 14 anos. Katia Mesel, a inquieta cineasta, viveu o mesmo Recife de Clarice. As duas vão se encontrar com o público na tela dos cinemas quando Recife de Clarices ficar pronto. Katia conversou comigo, por telefone, pouco depois de ter concluído o segundo dia de gravações. “Tomei um banho de mar e estou pronta para atender você”, foi logo dizendo. E começou, ela mesma, a entrevista. Katia parece falar na velocidade de um projetor de filmes: vinte quadros, ou melhor, vinte sílabas por segundo. Foi muito boa a conversa.
Revista Araçá – Você disse que está superfeliz com o início da filmagem. Por que essa felicidade tão grande?
Katia Mesel – Porque o primeiro dia foi incrível, só de figuração. Recife Antigo, Rua do Bom Jesus, Ponte da Boa Vista. Eu consegui que a Prefeitura do Recife ligasse a fonte da Praça Maciel Pinheiro. Germano Haiut falando com a estátua de Clarice, incrível! Clarice pequena, novinha, botando barquinhos de papel na fonte. Uma alegoria à travessia do Atlântico. Ficou tudo tão bonito! O segundo dia foi em Boa Viagem, cenas de banho de mar. É o pai com as três filhas na praia, brincando na praia e jogando água na outra, escrevendo o nome na areia.
As locações são todas no Recife?
É o Recife de Clarice. Isso é importante porque, fora daqui, ninguém sabe que ela se criou aqui. Ela é tão extraordinária que ninguém sabe que se criou aqui.
Como foi que a ideia do filme germinou na sua cabeça?
Em 2018, eu comecei a pensar no aniversário dos 100 anos de Clarice. E aí comecei a procurar as coisas mais contraditórias dos textos dela. Acho Clarice impressionante com as coisas do âmago, das perguntas que ela tem sobre ela mesma. E era o claro-obscuro de Clarice. E aí eu me deparei com a felicidade de estar criando. E me deparei também com direitos autorais. E eu não consegui. Não consegui, não consegui. Tinha que falar com a editora que é lá na Espanha, muitas dificuldades. Bom, não consegui, deixei pra lá. Deixei pra lá, mas aquilo ficou germinando na minha cabeça e eu pensei: "meu Deus, ela, ela", eu tinha que realçar essa coisa dela do Recife, essa vida dela do Recife. Ficou no pensamento.
E retomou quando?
Em 22, fim de 22 pra 23, foi fundada a Associação Casa Clarice Lispector para receber da Santa Casa o casarão onde Clarice morou. E aí eu fiz parte da diretoria dessa associação. No fim de 24, tive um encontro com o filho dela, que detém os direitos autorais. E eu falei do projeto e tudo, mas fiquei meio assim de pedir isso. Então, eu comecei a trabalhar os textos da coletânea de Moisés Wolfenson, que são 10, 12 textos, artigos de vários escritores pernambucanos. E aí eu fui trabalhando em cima do que essas pessoas relataram de Clarice. Um belo dia eu disse: "Moisés, conversa com o Paulo, vê se ele não me dá esses direitos autorais porque eu tou muito a fim de botar alguns textos pessoais dela e não a história contada por pessoas que estudaram sobre ela, mas não conviveram”.
Moisés Wolfenson é o presidente da associação.
É, ele está nessa empreitada de restaurar o prédio. Aí Moisés conversou, ponderou e ele me deu direitos plenos, não só desses textos, dos escritos, como de caligrafia, de voz, de imagem, direitos plenos. Aí eu disse: "Agora vou trabalhar". Passei seis meses pesquisando tudo que eu pude dos escritos de Clarice, de entrevistas, de jornal, tudo, ela falando do Recife. Seis meses. Eu pincei 33 textos falando da vida dela aqui, até ela ir embora pro Rio, até os 16 anos. E aí fui vendo que eu tinha minha infância, minha juventude de meninas judias, de imigrantes também, que fugiram dessas violências da guerra, não é? E meus caminhos eram dela. Eu estudei no João Barbalho também, eu estudei na Escola Israelita, meu caminho era Rui Barbosa, era Praça Maciel Pinheiro, era a Livraria Imperatriz. Então eu notei essa semelhança e fui respirando esse clima Clarice.

O que mais chamou sua atenção nesses 33 textos?
Eu comecei a pensar e ver que ela não era uma só, era múltipla, dentro desses sentimentos que ela expressa sobre a vida no Recife. E eu sei que tinha quatro personalidades. Tinha uma que era narradora, ela falava dos fatos sem sentimento, sem emoção, relatando. Claro que as emoções escapam, mas são relatos. É a única que escreve, bate à máquina e tal. Priscila Ferraz é a intérprete. A outra, que é interpretada por Fabiana Pirro, era muito triste, muito melancólica porque não conseguiu curar a mãe. Tem uma crendice na Ucrânia de que a gravidez curaria a mãe de alguma doença, mas ela nasceu e não curou a mãe e então levava essa culpa. A infância tinha a presença da mãe muito doente, paralítica. Essa segunda personagem é como se ela entrasse num portal e para resolver as mágoas dela. A terceira é a jovem que relata as peraltices de Clarice, que tomava banho de mar desnudada, as peraltices de roubar rosa, de roubar pitanga, de correr pelas fontes com os amigos. O nome da atriz é Dani Lispector, é o nome artístico dela, ela gosta de ser chamada assim. E a última personalidade é o aflorar da sensualidade. Essa é Nínive Caldas. Tem vários textos em que ela diz: "Eu, mulherzinha de nove anos, eu não sei o quê. Eu com o livro no meu colo". Então ela detecta não o erotismo, mas uma sensualidade aflorando aos 15, 16 anos. E esses relatos todos não são dessa época, é a visão dela já formada no Rio de Janeiro, já escritora, relatando esses fatos.
Você conseguiu conversar com alguém que conviveu com Clarice?
Tem uma coisa impressionantemente importante, que é um depoimento de Vera Shozy. Ela tem 100 anos e é a única parente de Clarice, que conviveu com Clarice, embora tivesse uma idade de cinco anos de diferença. Eu consegui gravar com ela, que está lúcida. E é uma forma de dizer assim: Clarice permanece.
Qual a duração do filme?
Vai ser curta porque eu sou curta. E o único longa que eu fiz foi uma loucura porque não consegui distribuição. Então eu disse: "Quero ser curta como sempre". Então, tudo bem, o curta vai até 25 minutos, mas tem muito festival que não aceita. Então eu disse: "Clarice também não é mínima, ela é máxima". Acho que vai ter uns 18, 20 minutos, com créditos, mais do que 20 não pode ter.
As gravações devem durar quantos dias?
Vão ser seis dias de trabalho. Olha, eu tou tão contente mesmo, de verdade, de verdade.





































































































































0 Comentários