Por Cristiano Santiago Ramos
Eis a proposta: explorar as veredas da literatura, da teoria e da crítica numa coluna que, ao fim e ao risco, será sobretudo (per)curso de corte e costura. Dizer algo sobre os livros, comentar seus portos e pontes, seus diálogos (mais ou menos inventados por este colunista) com outras obras. Ou seja, empresa fadada ao fracasso – e que tenho planejado há alguns anos.
Espero que ninguém se encontre e nem se resolva nesta Corte&Costura. Que este generoso espaço da Revista Araçá seja de errâncias e desassossego! Estejam sempre pouco à vontade entre esses assombros – tão fundamentais quanto inúteis – que ainda chamamos de livros.
I
“Procuro compreender quem foram algumas das pessoas que cruzaram o meu caminho. Em algum lugar eu talvez seja todas elas”, dizem a autora e a narradora de Apneia (Cosac, 2026), primeiro romance da poeta e artista visual Esther Faingold.
Prestes a se submeter a um tratamento de eletrochoque, que provavelmente apagará suas memórias, a narradora escreve uma carta para a filha. São lembranças e impressões, ruínas e lentes pelas quais o leitor reencontrará (entre algumas palavras e inacabados silêncios) cômodos tão antigos quanto urgentes. Família e identidade, tradição e ruptura, covas e corpos se (des)fazem nessas páginas, que inauguram o catálogo de ficção da nova Cosac.
Minha filha Ester – assim, sem o h – completou nove anos na semana passada. Aqui, diante da página 61 do Apneia, prendo a respiração um tantinho; imagino em quantos lugares desse livro ela ainda há de se perder, catar e cerzir memórias, mundos e espelhos que jamais foram inteiros.
É possível ler as seções do Apneia como contos ou poemas, tão incompletos e íntegros que dá vontade de pegar a tesoura e remontar suas jornadas, seus tantos lugares “suspensos nesse intervalo antes da chuva”. Mas suspeito que, em qualquer outra ordem, ainda terminaria a leitura com essa sensação: estamos todos às vésperas do esquecimento.
II
Depois de terminar o livro da Esther, peguei um dos meus dois exemplares do Quinhão de futuro (Cobalto, 2026), novo livro de Samarone Lima. Neste que tenho em mãos, a dedicatória diz coisas sobre “os silêncios que guardamos com afeto”. E sim, seu autor faz parte dessa imensa minoria de poetas que realmente conhecem o “lance do poema”, a lição que Antonio Cícero eternizou nos versos do Guardar. Creio que Esther também se perderia (por guardar) nesse belo “Endereços”:
Sigo nos endereços incertos
Em comarcas invisíveis
Os oficiais de justiça
não me alcançam
(tenho este instinto de salvação
dos animais acuados)
Eu me perco
com as chaves pelo avesso
nos bolsos que me sobram
mas durmo como os pássaros
alheio aos tremores de terra
aos deslizamentos
às trocas de prisioneiros
às demolições
às queimaduras
à fúria dos novos capangas
volto para a casa
que nunca esteve lá
e sei onde me guardar

Apneia
Esther Faingold
Cosac
144 pp.
R$ 100

Quinhão de futuro
Samarone Lima
Cobalto
72 pp.
R$ 45





































































































































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