Algumas coisas de Moacir Santos 

30 jul 2026 | 0 comentários

Por José Teles

A história de Moacir Santos é um filme à procura de um diretor. Uma mistura de personagens de Mark Twain e Dickens. Ele costumava dizer que nasceu entre preás e mocós “numa tapera, nos rincões e matas do sertão pernambucano, entre os municípios de Serra Talhada, Flores, São José do Belmonte e Bom Nome”. Esta última cidade é oficialmente seu lugar de nascimento. 

A persistência e o talento precoce para a música. Crescendo, em Flores, como criado em casa de família de brancos, ele fazia os serviços domésticos e nas horas vagas tirava sons de garrafas com água ou construía flautas toscas: “Eu já era exigente com a precisão das flautinhas, elas tinham que me oferecer a escala diatônica e um bom som. Descobri por mim essas coisas. Descobri tudo o que o flautim (pífano), podia me oferecer, principalmente para as minhas necessidades naquela pequena cidade”, contou Moacir Santos, que aos nove anos aproximou-se da  banda municipal de Flores e aprendeu a tocar todos os instrumentos, tantos os metais (trompa, trombone, clarineta, sax) quanto os de cordas (banjo,violão, bandolim).

Aos 14 anos caiu no mundo, inconformado com os maus tratos que sofria, apesar de lhe ter sido dada a oportunidade de estudar: “Sempre que bolem comigo, pisam no meu  defrontar, apanhar a minha estrela”. A pé, de carona, o adolescente Moacir Santos perambulou pelas cidades do interior pernambucano. Em todas havia bandas de música. O talento e bons modos o ajudavam a encontrar quem o abrigasse, e quase sempre ele acabava como músico da banda local. Em Serra Talhada, por exemplo, fez amizade com um saxofonista chamado Edésio Alves de Oliveira, de quem seria amigo até o fim da vida. Lá tocou na Filarmônica Vilabelense e na jazz band da cidade. De banda em banda, de circo em circo, ele chegou a Salvador, voltou ao interior pernambucano, cearense. Em 1943, pelas mãos de dois radialistas e publicitários, Antonio Maria e José Renato, foi contratado pela Rádio Clube de Pernambuco. A dupla lhe deu o epíteto de O saxofonista negro (ainda teve uma passagem rápida por Timbaúba). Logo estaria em João Pessoa, onde chegou com um timing perfeito. Passou pouco mais de um ano na banda da Polícia Militar da Paraíba. Entraria para a orquestra da Rádio Tabajara, quando seu diretor, o maestro Severino Araújo (pernambucano de Limoeiro), estava de mudança para o Rio. Foi nomeado diretor musical da emissora. A Paraíba foi fundamental na sua carreira. Não apenas conheceu Severino Araújo, que o receberia na então capital da República, como também uma moça de nome Cleonice, com quem se casaria.  Com o domínio que detinha do sax, clarinete e diversos outros instrumentos, nunca faltou emprego para o jovem músico serra talhadense. Estava com 22 anos quando, em 1948, trocou João Pessoa pela então Cidade Maravilhosa. 

Logo estaria na toda poderosa Rádio Nacional, o equivalente à TV Globo no auge da audiência. E para ali ingressar não contou apenas com seu talento. A Nacional era uma emissora estatal, o pistolão ali tinha voz de comando. Rui Rabelo, empresário paraibano que conheceu em João Pessoa, sabia de suas habilidades. Ele era da família dos criadores da Água Rabelo, de mil e uma utilidades terapêuticas (futuro pai de Raphael e Luciana Rabelo), pediu ao senador Rui Carneiro para conseguir uma “colocação” do saxofonista na Rádio Nacional. Foi com uma carta de recomendação que ele fez um teste na emissora. O teste com o Maestro Chiquinho. Moacir Santos tocou o que lhe mandaram e ainda mostrou chorinhos compostos em João Pessoa. Passou no teste: “O teste foi para nós, senhor diretor. Colocamos umas músicas para o rapaz e ele tocou tudo. Ele colocou uma música para nós, e nós não as tocamos”, confessou o maestro para seu superior na rádio.

Aluno exemplar

Depois de dois anos de Nacional, Moacir Santos seria nomeado regente e arranjador da emissora. Logo chegaria ao posto de maestro. Uma promoção histórica. Um músico pobre, órfão, dos cafundós do sertão nordestino, foi o primeiro negro maestro na principal rádio do país, um Santos entre sobrenomes italianos, Panicalli, Gnattali, Peracchi. Mas o que interessava, sua fixação, era seu aprimoramento. Imergiu nos estudos, com uma meta de cinco anos para  terminar sua formação, a contar de 1948: “Moacir Santos seguiu um programa multidisciplinar – harmonia, contraponto, história da música, orquestração, piano. Estudando simultaneamente com os professores Newton Pádua (mentor de Guerra-Peixe), Assis Republicano, José Siqueira, Joaquina Campos, José Baptista Siqueira, Radamés Gnattali, Paulo Silva e outros. Ao cabo de três anos, não de cinco, como inicialmente planejava, Moacir Santos pôde se apresentar como o músico completo que desejava ser” (da biografia Moacir Santos - Os Caminhos de Um Músico Brasileiro, de Andrea Ernst Dias). Aos poucos, o aluno se tornou professor de duas gerações de músicos que marcaram a música brasileira, do fim dos anos 1950 à metade dos anos 1960.

O professor

Oscar Castro Neves, Nelson Gonçalves, João Gilberto, Roberto Menescal, Nara Leão,  Geraldo Vespar, Bola Sete, Dom Um Romão, João Donato, Airto Moreira, Flora Purim, Raul de Souza, Chico Batera. O que todos estes nomes têm em comum? Estudaram com  Moacir Santos. Foi, com o alemão Hans-Joachim Koellreutter (1915/2005), de quem foi aluno e auxiliar, o mais importante “professor”, referência e guia da música brasileira no século 20. 

Foi dos primeiros músicos brasileiros a atentar para a nossa herança, e a dele próprio, da cultura africana, e transportar isso para a sua obra, sem os estereótipos de ginga e batuques, mas com refinados arranjos e orquestrações, sintetizados no LP Coisas, o disco que inaugurou sua discografia, de 1966. O  Correio da Manhã publicou em 23 de fevereiro de 1964: “Dividindo seu trabalho entre a música erudita e a música popular, procurou na corrente negra o grande caminho para ambas em nosso país. É ele mesmo quem diz: ‘O ideal é que achemos o caminho que fará correrem junto as ideias instrumentais e harmônicas dos europeus e o espírito e o ritmo africanos”.

Sem Moacir Santos não existiria o afro-samba de Baden Powell, com letras de Vinicius de Moraes. Sua influência paira sobre a música popular brasileira dos anos 1960, está na bossa nova, na MPB, tanto nos compositores, quanto nos músicos, a exemplo do percussionista Airto Moreira, que reinventou o instrumental do que se chamava até então de ritmista. Notadamente, a mandíbula de um burro, para acompanhar Disparada com o Quarteto Novo, mais um filho do pernambucano imensamente menos cultuado no seu estado natal do que merecia e deveria ser. 

Ganga Zumba

“Acredito que a trilha de Ganga Zumba foi o melhor trabalho que até hoje realizei. Não só porque me encontrou numa fase de maturidade musical, como também pela identificação que senti pelo tema e o espírito do filme”. O diretor pedira a Moacir uma verdadeira sinfonia negra que estivesse acompanhando o espírito culturalmente negro do filme, com ritmo, melancolia e densidade negros. O primeiro tema foi escolhido por Moacir – Nanã – que mais tarde Nara Leão cantaria em seu disco de estreia, e no filme mesmo. O resto foi compondo e escrevendo.

A sinfonia divide-se em quatro movimentos distintos. O primeiro, tema central do filme – Nanã – tem a forma de um lamento e é instrumentalizado quase sempre de uma maneira muito simples, com solos vocais femininos (Nara) e três trombones. O andamento é de um lamento negro, simples e sem grande reverberação. O segundo tema, de fuga, é ágil e vibrante. Possui todo o espírito negro da violência (sic) e do ritmo, e sua forma é um misto de variações de fugas, com o ritmo ágil de atabaques e bongôs. 

O terceiro, de caráter épico, é o único que exigiu grande orquestra e coro. Está todo baseado nos sons africanos característicos: os sons da mata, os das festas nas aldeias, os da guerra, toda uma gama de vibração que é esfuziante. Por fim, o tema romântico do filme, que poderíamos chamar de um prelúdio negro. Seu principal solista é uma flauta que, em determinados momentos, surge apenas com uma pequena percussão lhe acompanhando. 

Além desta parte orquestra, Moacir fez uma profunda pesquisa de percussão, encontrando sons originais e realmente de grande efeito. Moacir Santos comentou sobre a trilha de Ganga Zumba: “Se você quer uma síntese dessa música, eu diria que ela é o que eu queria fazer sempre: ritmo e paixão”.

A música de Ganga Zumba, filme de 1964, dirigido por Cacá Diegues, uma das várias trilhas que Moacir Santos criou para o Cinema Novo, está disponível no Youtube.

João Gilberto 

Em entrevista ao jornal carioca Correio da Manhã, Moacir relembrou sua rápida experiência como professor de João Gilberto, em 1963/1964: “João entrou na minha casa e quase não disse a que vinha. Depois sentou-se, pegou um violão e começou a dedilhar. Em determinado momento, desconfiei que ele pedia alguma coisa, muito baixo, que a gente nem ouvia direito. Era pra ter aulas comigo. Eu comecei a lhe explicar o método, o horário, estas coisas todas. Ele chegou a vir para a primeira aula. Mas preferia tocar violão, ou ouvir minhas músicas, cantarolar e fazer os exercícios necessários. Na semana seguinte, ele não veio. Alguns dias depois, eu soube que ele partira pra o exterior”. 

Mas foi o aluno relapso que indicou o professor para escrever a trilha do filme Seara Vermelha, de Alberto D’Aversa (1963), baseado na trilha homônima do romance de Jorge Amado. Filmado em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). Na trilha, Lamento de Vicente, rara e única parceria de João Gilberto com o conterrâneo Jorge Amado. A canção, um baião composto em 1962, aparece no filme com letra, interpretada por um cantor não identificado. Dez anos mais tarde, em LP que tem seu nome por título, João Gilberto regravou a música, sem letra, ou melhor, com uma única palavra, Undiu, assim batizada esta faixa.

“Tudo tem que ser feito neste mundo com muita paixão. Imagine então a música. Quando estou escrevendo música não penso em mais nada. Ando e ando, assoviando, ouvindo o som das ruas, dos jardins, interpretando estes sons. Depois volto para casa e escrevo sem parar, ao lado do piano. Fico na rua procurando os personagens do filme. Olhando as pessoas que para mim mais se parecem com eles. Aí é que nascem os temas definitivos”, comentou, na citada entrevista ao Correio da Manhã, sobre seu método de compor para o cinema, que o levaria a Hollywood em 1967.

Dúvidas sobre a própria origem 

No entanto, já vivendo confortavelmente, nos Estados Unidos, Moacir Santos ainda se afligia por não saber com certeza suas origens. Em 1980, ele foi ao sertão do Pajeú, onde finalmente descobriu o registro de seu batismo, na Casa Paroquial de São José do Belmonte. No batistério encontra-se a data de nascimento (26 de julho de 1926) e o nome dos pais, “filho legítimo de José Francisco do Nascimento e de Julieta Pureza Torres". O pai abandonou a casa, e a mãe morreu quando Moacir estava com três anos

Mas mesmo com o registro ainda pairavam dúvidas no ar. Andrea, sua biógrafa, comenta sobre a dúvida que ainda existe em relação à origem do maestro: “Duas curiosidades chamam atenção nesse documento, o nome grafado como Muacy e a ausência do sobrenome Santos. O que leva a questionamentos sobre a efetiva correspondência entre esse documento e o compositor. Tomam-se, até prova em contrário, os prenomes dos pais e o fato desse registro ser único como elemento de sua certificação”.  

O nome com a grafia Muacy em um muro de Flores. Foto Anselmo Alves

Moacir cresceu, pois, sem saber onde tinha nascido e com dúvidas até sobre como realmente se chamava: “Parecia uma criatura numa pedra no meio do mar, com as águas batendo como se fossem as pessoas perguntando: ‘Quem é você?’, ‘Qual o seu nome?’, ‘Quando você nasceu?’, ‘Onde você nasceu?’, eu não sabia de nada. Mas agora eu sei. Agora Eu Sei é o título de uma das coisas minhas, uma música minha”.

Há outra composição sobre o dilema de sua identidade, What’s my name, do álbum Saudade, lançado nos EUA, pelo Blue Note, em 1974, com letra em inglês de Jay Livingstone e Ray Evans, dupla ganhadora de um Oscar de Melhor Canção, em 1956, com Whatever will be, will be (Que será, será), da trilha de O homem que sabia demais de Alfred Hitchcock (no Brasil ganhou versão no mesmo ano, de Nadir Corte Real, com Neusa Maria).

Independente isso, trafegando certo por vias tortas, o garoto negro, órfão, pobre, do sertão pernambucano, ensinou música a alguns dos mais talentosos músicos e intérpretes brasileiros, criou trilhas para o cinema e apontou caminhos para a música brasileira, que passavam pela África. Mas não na ginga, nem no batuque estereotipados, manjados. Sem Moacir Santos não haveria os afro-sambas de Baden e Vinicius, nem o interesse pelos sambistas negros, feito Cartola e Zé Kéti, ou espetáculos como o show Opinião, e o Arena Conta Zumbi.

Redescoberta do Ouro Negro

Baden Powell conta que, quando foi aluno de Moacir Santos, ganhou a confiança do maestro, talvez por tocar tão bem, que ele passou a lhe mostrar sua produção musical, tocando coisas que não mostrava aos demais pupilos e pupilas. E era por "coisa" mesmo que chamava as composições. Quando, em 1963, Baden foi gravar o álbum Baden Powell Swings With Jimmy Pratt, incluiu dois dos temas que Moacir Santos lhe mostrou e perguntou os títulos, o maestro disse: "Põe Coisa". E assim foram gravadas Coisa n°1 e Coisa n°2.

E Coisas é o título do seu disco mais célebre no Brasil. Embora ele tenha dito que a trilha de Ganga Zumba, filme de Cacá Diegues, de 1963, seja seu trabalho mais importante. Um álbum que é um dos monólitos da música brasileira. Mais de seis décadas desde seu lançamento em 1965, sua música tem o frescor de recém composta. Na época do predomínio do violão, Coisas tem a guitarra elétrica de Geraldo Vespar (o autor do riff que abre O Fole Roncou, de Nelson Valença, gravado por Luiz Gonzaga, segundo me disse Dominguinhos).

Porém, 33 anos fora do Brasil fizeram com que Moacir Santos se tornasse um ilustre desconhecido. O cantor André Rio lembra das visitas que o maestro fazia ao pai dele, advogado e compositor, Alírio Moraes, tocando piano em sua casa. Mas não se encontra em jornais registro dessas passagens de Moacir Santos pelo Recife. Os músicos Zé Nogueira e Mário Adnet seriam responsáveis pelo "redescobrimento" do maestro em 2001, com o projeto Ouro Negro, iniciado em 1998. Acrescente-se a isso a citada e acurada biografia.

Curioso é que tanto Mário Adnet quanto Zé Nogueira, músicos tarimbados, calejados, conheciam muito pouco a obra de Moacir Santos. Adnet chegou a ela graças à pirataria. Zé Nogueira, por um álbum importado do maestro. Juntos tocaram o monumental projeto Ouro Negro, que rendeu um DVD ao vivo, e o disco Choros e Alegria, com um Moacir Santos desconhecido, dos chorinhos compostos, alguns, nos anos 1940.

A dupla esteve à frente do ansiado relançamento de Coisas, engataram uma forte amizade com Moacir Santos, que veio com tudo em busca do tempo perdido, devidamente recuperado. A geração que despontou no início do século 21, não contaminada pela música tosca que passou a predominar nas paradas, teve acesso à obra do maestro, agora praticamente completa em streaming. 


José Teles é jornalista.

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