No vidro baço dos dias
Por Carla Montanha
Abriu-se um clarão fechado
na tarde
deitada ao vento.
Os dedos
corridos de terra
não contavam
o tempo.
Nem eu
aprendi
o ofício da noite,
nem as horas
que se gastavam
na cal do dia.
Mas o céu
esculpia linhas.
Bastava
fechar os olhos
para ver
um rosto fino,
sem sorriso,
gasto
no vidro baço
dos dias.
Carla Montanha, 29 anos, é natural de Garanhuns, publicou De peito aberto e Almas, sóis e viadutos caindo, livro ganhador do X Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, no prelo.
Da espécie e seu desterro
Por Helder Herik
Amir
da vestimenta
chita sarja cambraia
demais estofos
molambos andrajos
o vestir
sem begônia calêndula tule
coisas de estamparias
o vestir o nu
com somente cobrir
anomalias
se estribado
enroupa gabardines
sarjas brins elastanos
a napa o tricoline
de coser batas
Fayez
o socar-se em farda
o traje refilado
que é armadura
de lenhos vigas ripas
ele-tronco
do socar-se em farda
e refilar langanhos
Mustaf
panos, mantas, fiandas,
demais envergadura,
ele: haste
apinhando fibras,
espasmos,
ele: pendão vergado,
arco-asco,
ele: de nascido
ao que é,
ao que vês,
que é a casca rala
ele: a tona
ou mais embutido
em bagos
Said
espécie só de ofício aparecido, daí que cava, sola, empilha
Nadia
e dizem dela vestir-se de panos gastos igual os caminhos por onde passe de jamais haver
begônias nem tules ou linhos finos de lhe ornar os corpos em outras eras e que mesmo no seu
antes cobria-se de sarja e cambraia e sempre a só vestir andrajos e molambos com lembrança de
cor já perdidas e tão somente servir de cobrir as carnes e anomalias
Helder Herik nasceu em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco. É vencedor dos prêmios Pernambuco de Literatura e Prêmio Cepe Nacional com os livros Rinoceronte dromedário, Auto de javalis e unguentos e O menino mais estranho do mundo (infantil).





































































































































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