O mangueboy adorava selfies

29 out 2026 | 0 comentários

Por Paulo André Leitão

Goretti França é a única irmã de Chico Science e de outros dois irmãos. A convivência com ele, principalmente nos últimos anos de vida, tornou-a responsável por todo seu acervo. Superadas as dificuldades iniciais de lidar com a ausência, Goretti descobriu e encantou-se com muitas lembranças materiais presentes no dia a dia do irmão. Parte desse acervo está reunido no livro Chico Science Inclassificável: imagens, cadernos e memórias, com lançamento marcado para 28 de novembro, no Recife. Há outro livro, que ainda não ficou pronto, mas que já tem previsão de lançamento em março do próximo ano. Livro digital, de selfies feitas por Chico com uma máquina fotográfica. Na entrevista a seguir, Goretti fala sobre as coisas do irmão.    

Revista Araçá: Como começou o trabalho de recuperar, manter e cuidar de todo o acervo de Chico?

Goretti França: O trabalho começou desde que Chico partiu. Eu morava com ele e, como éramos apenas nós dois, fiquei com os objetos dele. Inicialmente, tive muita dificuldade para lidar e separar os itens. Depois, nossa amiga Sonaly Macedo ajudou a organizar e separar o que era do artista das peças de vestuário comum, que doamos. Deixei o quarto dele intacto durante muitos anos. Fui morar em Salvador e deixei o apartamento fechado com as coisas dele. Posteriormente, fui arrumando e separando os itens, enquanto minha mãe passou a morar no apartamento. Eu supervisionava a guarda, buscando lugares seguros por medo de perder alguma peça, com a ideia futura de montar um instituto. Na época, não consegui focar nisso porque precisava trabalhar. Percebi cedo que os cadernos, usados por ele desde os anos 80, eram a parte mais valiosa e frágil.

O que ele escrevia nesses cadernos?

Escrevia letras de música, ideias e textos que funcionavam como partituras, pois ele não era músico de formação. Anotava como queria que a música soasse, comparando com batidas de maracatu. Também havia listas de compras, endereços, textos avulsos e cartas de amor suficientes para um livro.

Ele desenhava?

Desenhava pouco, focando principalmente na posição dos músicos, dos tambores e da guitarra no palco, o que demonstrava que ele também produzia e dirigia. Os cadernos mais antigos contêm textos de cunho social muito forte, escritos entre 1984 e 1988, que depois viraram músicas nos anos 90. Como eram frágeis, coloquei os cadernos numa caixa e os levei comigo para Salvador e depois para o Rio de Janeiro. Eles foram o primeiro alvo de tratamento museológico do nosso primeiro projeto do Funcultura, em 2021. Restauramos e digitalizamos em alta resolução os cadernos e mais de 250 folhas avulsas, incluindo textos manuscritos e datilografados em uma máquina Remington antiga do meu pai.

O que mais havia no quarto dele?

Não havia muita coisa no apartamento. No quarto, ele tinha um colchão no chão, pois não tínhamos cama, uma cadeirinha de praia que está no acervo, uma mesinha e um rack com CDs e livros. Ele passou a morar comigo nesse apartamento novo nas Graças após eu me separar e pedir asilo emocional na época em que morávamos na rua 48. Havia também um guarda-roupa, um marinheiro que ele chamava de anjo da guarda e uma alfaia.

Foto Acervo da Família

O que é esse marinheiro, um boneco?

Era um boneco vendido em casas de umbanda, que hoje está no acervo. Ele ficava em cima de uma alfaia da primeira formação da Nação Zumbi, que havia rasgado. Havia um quadro onde ele colava itens, como um cartão com um trecho de uma carta de Hélio Pellegrino a Fernando Sabino, que lhe dei, um poema de Damário da Cruz chamado "Todo Risco", e um exame negativo de HIV que ele fez no advento da Aids.

Passado esse tempo e com as mudanças, o trabalho de fato começou. Em que estágio está hoje?

Após o restauro dos cadernos, fizemos um segundo projeto pelo SIC da Prefeitura do Recife para inventariar e digitalizar todo o acervo e entender o espaço necessário para guardá-lo. Nem tudo foi digitalizado por falta de recursos, mas fizemos parcerias com a Fundação Joaquim Nabuco e a Arquidiocese de Olinda e Recife, utilizando um laboratório na Várzea. Fred Jordão fotografou itens como chapéus e sapatos. Hoje, todos os objetos estão inventariados com nome, número e tag, guardados em caixas e invólucros adequados, sendo facilmente localizados por planilhas.

Foto Acervo da Família

Havendo recursos financeiros e a oportunidade de criar um instituto, está tudo pronto?

Tudo pronto, sendo esse nosso desejo mais urgente. Também digitalizamos todas as fotografias do acervo, pois são itens que se deterioram facilmente. Vamos lançar um e-book, financiado por um projeto do Funcultura, previsto para ser entregue em março, no dia do aniversário dele.

O e-book trará fotos de que, especificamente?

Escolhemos apenas selfies, pois ele foi pioneiro nisso. Usando sua câmera Olympus, fotografava a si mesmo e aos amigos quando isso não era comum sem os celulares.

Isso não tinha relação com egocentrismo, era apenas curtição?

Acredito que era curtição, pois ele não parecia egocêntrico e tirava fotos em várias posições.

Ele dividia as fotos com outras pessoas?

Sim, ele foi evoluindo a técnica e fotografava grupos inteiros, como a famosa selfie com a mão no rosto ou dentro de uma van com toda a Nação Zumbi. 

Foto Acervo da Família

O que será feito quando a fase de restauro estiver concluída?

Partiremos para a criação do instituto a fim de obter outras fontes de recursos, já que acervos privados dependem muito de projetos culturais.

A ideia é oferecer às pessoas a chance de conhecer, pois não faz sentido apenas guardar?

Perfeitamente, esse é o principal objetivo. O público e os pesquisadores precisam ter acesso aos objetos e, principalmente, aos escritos. Lendo seus textos, percebo que as palavras dos anos 80 mostravam uma revolta crua sobre o fim da ditadura. Os textos posteriores, embora incisivos, ganharam um tom mais suave e engraçado ao interagir com a cultura popular, como maracatu, coco de roda, Véio Faceta, pastoril e ciranda. Além da educação, o instituto poderia focar no ativismo ambiental ligado à visão dele sobre os manguezais.

Se fosse arrumar o quarto dele novamente, o que não poderia faltar?

O quadro com o poema "Todo Risco", de Damário da Cruz, um poema de Fernando Pessoa pedindo para ser inteiro, e a foto de Sharline, seu último grande amor. Ele dizia que levaria o quadro e os poemas caso fosse embora, portanto, não poderiam faltar. Também estariam o marinheiro, uma pequena sereia numa caixa de fósforos que ele dizia ser sua namorada, e uma guitarra da qual ele sentia muito orgulho, usada por Scandurra num show no Espaço Oásis na época do Loustal ou Orla Orbe. Contudo, eu queria mesmo era que ele estivesse lá.

Foto Acervo da Família

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