Quem não conhece Lolita não conhece o Recife 

5 nov 2026 | 0 comentários

Foto Divulgação

Por Paulo André Leitão 

A população do Recife Antigo e de bairros centrais da cidade conviveu entre os anos 1950 e 1970 com Ivo Alves da Silva, conhecido como Lolita, cuja vida o imaginário popular cuidou de ampliar. Quem não a viu nas ruas imaginou-a por meio de jornais e emissoras de rádio. Preto, pobre, homem, mulher, homossexual, travesti, Lolita encarnou a transgressão da moralidade predominante à época e a valentia contra a violência policial. O Recife apagou sua história. O jornalista e escritor Cícero Belmar juntou os poucos fatos que conseguiu resgatar e recorreu à ficção para escrever o romance Quem não conhece Lolita não conhece o Recife.  

Revista Araçá – Antes do início do livro, você afirma que “Lolita estava em situação de apagamento quando comecei a pesquisar para contar sua história. Por isso, apenas 5% desta narrativa corresponde à memória real: o passado foi recriado pelos filtros da ficção”. De onde vieram esses 5%?

Cícero Belmar – Inicialmente, imaginei fazer uma biografia. Comecei a levantar os fatos sobre Lolita, mas não conseguia avançar muito, limitando-me ao que estava em jornais antigos e às informações de pessoas que consegui entrevistar. Restavam muitas lacunas e ilhas de informação, sem uma sequência clara da ordem dos acontecimentos. Como não dava para fazer uma biografia, limitei-me às informações primárias, como o fato de ela ter nascido em Nazaré da Mata e os nomes dos pais. Peguei informações do "Rei da Notícia", um jornal que existiu no Recife na década de 1980, e no Jornal da Cidade. Como o romance ficou muito maior em relação à quantidade de palavras, estimei a proporção de fatos reais em 5%, não passando de 10%. Fiz questão de explicar isso porque, ao apresentar o livro em um concurso de literatura, um escritor renomado achou que a obra era jornalística e não literária devido ao excesso de informações. Na verdade, até a entrevista que inicia o livro é ficcional. Coloquei essa explicação para que as pessoas não confundissem a ficção com o jornalismo, uma vez que também sou jornalista. Descobri que a história de Lolita encontrava-se em um lugar de marginalidade, exclusão e apagamento de memória. Ela estava sumindo da lembrança, então precisei utilizar muita ficção para resgatar a personagem. Na minha opinião, foi a ficção que salvou Lolita do esquecimento no meu livro. Pode ser que outra pessoa consiga fazer um livro jornalístico no futuro, mas o meu é ficção.

O que mais atraiu e motivou você a escrever sobre a pessoa que de fato existiu?

Sempre quis escrever sobre personagens marginalizadas que viviam em locais de exclusão. Como repórter, eu já escrevia muito sobre pessoas nessa situação de estigmatização. Ao escrever sobre Lolita, busquei exatamente esse resgate. Trabalhei bastante com meninos e meninas de rua e com travestis em reportagens, o que me deu vontade de escrever sobre eles de uma maneira que resultasse em uma representação mais fidedigna de seus universos. Percebi que sempre quis falar sobre a dignidade humana por meio desses personagens.

O fato de Lolita se apresentar como mulher, como travesti, com algumas idas e vindas nessa autoconcepção, foi um dos pontos fortes na atração pelo personagem?

Uma das coisas curiosas e que tem muita relação com os dias de hoje é que Lolita se enquadraria no que as pessoas chamam atualmente de não-binária. Ela não definia a própria orientação sexual, nem se era homem ou mulher, mas definia-se pela forma com que desejava ser vista. Ao mesmo tempo em que lutava para sobreviver naquele espaço, ela brigava com soldados e nutria fortes paixões por homens. Essa atualidade da não-binariedade e a questão da definição do nome também me atraíram muito, pois hoje as pessoas em transição de gênero enfatizam a necessidade de serem vistas pelo futuro nome social. Fiquei imaginando as dificuldades que Lolita deve ter enfrentado para ser chamada dessa forma, o que é uma questão muito presente para as pessoas em transição.

Ela fala muito sobre isso.

Em mais de um momento, quando Lolita ainda não tinha nome e falava com a cantora Gigi e outras pessoas, ela teorizava sobre isso, que a pessoa carregava o que o nome dizia. Ele tinha essa dificuldade, pois, ao ser reconhecido como Ivo, não se expunha e era tímido. Ao ser chamado de Lolita, no entanto, é como se ele fosse o protagonista da própria história.

Rita do Cabelão dizia isso quando Lolita ainda era Ivo.

Rita dizia a ele que ele não era mais Ivo e precisava de um nome que falasse mais sobre quem ele era. Quando vive com Gigi na pensão, ele pede que a cantora também mude de nome, pois ela passou por uma mudança de temperamento e crescimento como pessoa. Quando ela se torna Gigi Godet, passa a ser a cantora que sempre quis ser, assim como Lolita, que também passa a ser quem sempre quis.

O nome original da cantora, Gildézia, não era atraente.

Não é um nome de artista. A cantora já se chamava Gigi, mas eu procurei um nome de batismo que não combinasse com o palco, daí a escolha de Gildésia. Todos os personagens vão forjando a própria personalidade ao longo do caminho, e nós somos muito influenciados pelas pessoas com as quais convivemos. Muitas vezes, nós não assumimos a nossa verdadeira personalidade por conta de prisões. A história de Lolita aborda muito isso.

Quase sempre por força das circunstâncias, Lolita deixa para trás pessoas que a protegiam. A mãe, o padre, o filho de santo, um marginal e Rita do Cabelão. Esta última é a única que aparece no fim do livro. Ela existiu ou surgiu com essa força durante a criação?

Eles vivem em um espaço de muita exclusão. Como eu precisava de algumas personagens para dar leveza e humanizar um pouco a história, Rita do Cabelão e Ninón, dona de uma pensão, são fundamentais para essa humanização. Rita quer sair da prostituição, mas é vítima da violência. Ambas são personagens de ficção criadas para trazer essa realidade.

Em nenhum momento Lolita é covarde ou trai as pessoas. É uma concessão que você fez devido à admiração que tem por ela?

Em dois momentos do livro, eu digo: “O que dizer dos covardes?” Você tem toda razão. Lolita nem é covarde nem trai. Ele não trai a si mesmo nem trai outras pessoas e também não faz concessões a nada. Ele tem sua própria ética e vai até o fim. Então, realmente eu fiz concessões quanto a isso. É preciso ter um certo cuidado com os personagens. Acho que fiquei com saudades de Rita, Ninón e Lolita depois de terminar o livro, pois convivi com elas por muito tempo na minha cabeça.

Quanto tempo durou essa convivência?

Foram cerca de 10 anos, desde a concepção inicial até colocar o ponto final. Porém, não passei todo esse tempo focado na mesma obra, visto que escrevi biografias contratadas e livros de crônicas e contos. Eu comecei a ler e a fazer as entrevistas sobre Lolita, fui atrás das pessoas que conviveram com ela, mas elas desistiam. Achei um ex-sargento da polícia que me disse ter apanhado e batido nela e uma ex-prostituta que virou lavadora de carros, e eu reuni todas essas informações, mas não dava para fazer uma biografia. Aí eu resolvi fazer uma biografia ficcional e tive de repensar a forma de abordar, passando a narrar desde os primeiros anos vividos por Lolita.  

O livro traz o peso da repressão da ditadura nos anos 1970.

Sim, na minha cabeça, a vida de Lolita e de outras pessoas que moravam no baixo meretrício, no Bairro do Recife, estava engessada pelo Código Penal, que determinava que mulheres não podiam sair à noite até determinada hora. Homossexuais e travestis eram muito perseguidos nessa época, e se até mulheres honestas e perdidas já eram reprimidas, imagine um rapaz negro e homossexual que fazia a limpeza das pensões. Ele sofreu muito com a repressão. Os jornais da época falavam sobre a influência dos travestis na juventude, e Lolita foi afetada por isso.

A que se deve o apagamento de Lolita?

É comum que essas pessoas, em um momento de marginalização, exclusão e violência, sejam esquecidas. No Recife, não houve nenhum registro da vida de Lolita, apesar de sua importância no meio underground. Quando você apaga a história de uma pessoa, você apaga também parte da história do lugar. 

O corpo da personagem foi usado conscientemente como expressão política?

Não, mas ele termina sendo usado dessa maneira. A personagem não tinha como ser diferente, então o sofrimento dela acaba se tornando uma denúncia da situação.

Há um jogo de poder evidente quando Lolita relata brigas com policiais militares ao delegado, e ele repassa as informações para a imprensa. Também há a relação com o fato de Lolita odiar PMs.

Sim, tentei trazer o medo que Lolita sentia da repressão, uma raiva que vinha do fato de ter sido rejeitada pelo pai quando era criança. Para ela, os soldados representavam o poder do pai.

O livro cita nominalmente dois jornais recifenses: o Diário da Noite, que existiu de verdade, e O Lameirão. Ele existiu?

Existiu, sim. Eu coloquei esse nome lá, mas não consegui localizar o jornal, o que é um dos motivos que me impediram de fazer a biografia. O Lameirão foi quem criou a manchete: "Quem não conhece Lolita não conhece o Recife". Ele circulava em alguns locais do Recife Antigo, era uma publicação mal feita e focada apenas na tábua de marés e horários de chegada de navios. Quem a publicava ganhava dinheiro com isso. Com relação ao Diário da Noite, que também teve muitas histórias minhas, a gente sabia quanta invenção e forçação de barra havia. Lolita teve muitas lendas urbanas forjadas através de repetições em jornais. Na verdade, a Lolita do livro não é exatamente a Lolita real. Ela é mais forte, sabe jogar capoeira e trabalha no Recife Antigo.

O romance exala sexo do início ao fim, mas não descreve intimidades do ato sexual. Você teve pudor?

Na verdade, havia um certo pudor com algumas palavras, pois a literatura é linguagem, e você precisa dar uma aparência de verdade sem exageros, usando a linguagem para convencer e construir a narrativa. As questões de sexo foram tratadas de forma a não estigmatizar, e o desejo é muito presente em Lolita. Eu fiquei com receio e não coloquei os termos mais polêmicos. Foi o que pude fazer, até por medo das consequências políticas de lançá-lo se houvesse uma mudança de governo, então eu quis lançar o mais rápido possível.

Quem não conhece Lolita não conhece o Recife

Cícero Belmar

Mirada

425 pp.

R$ 80

Serviço

Lançamento de Quem não conhece Lolita não conhece o Recife

  • 26 de novembro
  • Bar Mamulengo - Rua da Guia, 211 - Bairro do Recife 
  • 19h

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