A casa que pede socorro

17 set 2026 | 0 comentários

Foto Acervo

Por Walmir Chagas — o Véio Mangaba

No Pátio do Terço, bairro de São José, existe uma casa que não guarda apenas paredes antigas. Guarda uma parte essencial da memória negra do Recife. Ali viveram Tia Sinhá (Eugênia Rodrigues Braga)  e Tia Yayá (Amélia Rodrigues Braga), ligadas à tradição nagô e reconhecidas como filhas de Tia Eugênia, uma das antigas ialorixás do Recife. Depois veio Badia (Maria de Lourdes da Silva), sucessora das Tias do Terço e uma das grandes responsáveis por manter viva, naquele endereço, a ligação entre religião afro-brasileira, carnaval, culinária e vida comunitária.

Badia costurava roupas para as elites pernambucanas, mas também confeccionava fantasias para as agremiações carnavalescas de São José. Cozinhava comida de terreiro, recebia artistas, carnavalescos, religiosos e gente do povo. Sua casa se tornou um ponto de encontro e de resistência. Também esteve ligada ao Baile Perfumado e à tradição da Noite dos Tambores Silenciosos, uma das cerimônias mais importantes do carnaval do Recife.

Depois da morte de Badia, em 1991, Lúcia Soares dos Santos assumiu a tarefa de guardar e transmitir esse legado. Lúcia viveu naquela casa desde menina. Ali manteve o restaurante AfroLuz, preparou receitas ancestrais, recebeu grupos carnavalescos, organizou festas e continuou abrindo as portas para quem desejava conhecer ou ajudar a preservar aquela história.

Mas é preciso dizer uma coisa: Lúcia nunca esteve completamente sozinha. Ao longo dos anos, pesquisadores, jornalistas, escritores, artistas, produtores culturais e estudiosos do patrimônio chamaram a atenção para a importância da Casa de Badia e do Pátio do Terço. Isabel Guillen, Ivaldo Marciano de França Lima, Roberto Benjamin, Maria Cecília Verardi, Leonardo Dantas Silva, José Antônio Gonsalves de Mello e João Monteiro ajudaram a registrar, estudar e divulgar a história daquele lugar. Seus trabalhos mostraram que a casa não deveria ser vista apenas como uma residência antiga, mas como um espaço de memória religiosa, cultural e social do povo negro do Recife.

A Casa de Badia fica no Pátio do Terço. Foto Acervo

Também jornalistas e cronistas contribuíram para manter essa memória em circulação. Paulo Viana, ligado à organização do carnaval recifense, teve papel importante na criação da Noite dos Tambores Silenciosos. Mário Sette, em suas crônicas, registrou histórias e lembranças relacionadas à presença negra nos bairros antigos da cidade. Mais recentemente, reportagens de jornais e revistas voltaram a denunciar a situação da Casa de Badia e o abandono do Pátio do Terço.

Por ali passaram muitas pessoas importantes. Artistas populares, compositores, autoridades, representantes do movimento negro, pesquisadores e visitantes de vários lugares. Segundo o produtor cultural e cineasta documentarista Anselmo Alves, durante muitos anos aconteciam cafés da manhã na casa de Lúcia, reunindo lideranças negras, artistas e autoridades. Ele recorda a presença de Chiquinha Gonzaga, irmã de Luiz Gonzaga, e seu filho Januário, além de outras figuras da cultura e da vida pública.

Anselmo Alves é um desses homens que continuam tentando impedir que essa história se apague. Há anos ele registra, divulga e defende a Casa de Badia. Guarda fotografias, reúne depoimentos, produz memória e insiste em chamar a atenção das autoridades. Para ele, Lúcia era uma verdadeira enciclopédia cultural do bairro de São José. E a casa, um dos lugares sagrados da memória negra do Recife.

Mas toda essa dedicação individual esbarra num problema maior.

Sem uma atitude oficial e permanente das prefeituras, do Governo do Estado e do Governo Federal, a preservação nunca passa da intenção. Há estudos. Há pesquisas. Há documentos. Há tombamento estadual. Há diagnósticos técnicos sobre a importância do imóvel. O próprio Plano de Preservação do Patrimônio Cultural do Recife reconhece que o Pátio do Terço e a Casa de Badia são referências históricas e culturais da cidade. Mesmo assim, a proteção não se transforma em cuidado efetivo.

A casa vai se desgastando. O bairro vai se transformando. Os moradores antigos vão desaparecendo. E a cultura, quando não encontra espaço para viver, começa a existir somente como lembrança.

Lúcia no seu último Baile das Coroas Perfumadas. Foto Paulo André Leitão

Lúcia morreu no dia 12 de setembro de 2026, aos 77 anos. Com sua partida, desaparece a última grande presença cotidiana daquela linhagem. A pergunta agora é inevitável: quem vai abrir a porta? Quem vai cuidar do acervo? Quem vai manter as festas, as receitas, os encontros e as histórias?

Não basta publicar uma nota de pesar. Não basta homenagear Badia no carnaval. Não basta fazer discurso sobre ancestralidade. É preciso recuperar a casa, garantir sua manutenção e criar uma política permanente para que ela continue sendo um lugar vivo. Porque tombamento sem cuidado é apenas uma promessa escrita. E memória sem comunidade vira peça de exposição.

A Casa de Badia precisa ser restaurada e entregue novamente ao povo. Pode ser centro de memória, espaço de formação, cozinha ancestral, sede de encontros, local de ensaios, pesquisa e transmissão dos saberes afro-pernambucanos. Mas precisa continuar viva. A cultura não pode permanecer apenas nos artigos jornalísticos, nas dissertações e na cabeça dos pesquisadores.

Agora que Lúcia partiu, Anselmo Alves e tantos outros não podem ser deixados sozinhos nessa luta. A chama ainda existe. Mas, sem uma decisão oficial, ela pode se apagar.

E quando uma chama dessas se apaga, não se perde somente uma casa. Perde-se uma parte da alma do Recife.


Walmir Chagas é multiartista e pesquisador da cultura popular, criador e intérprete do Véio Mangaba. Nasceu no bairro de São José e foi acolhido e iniciado na chamada "Casa das Tias do Terço".

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