O circo das misérias
Ninguém diria que eles estavam ali parados na frente do circo com suas melhores roupas. O pai usava uma calça já esfarrapada, um pedaço de corda no lugar do cinto. A mãe recorreu a um desbotado vestido florido ainda do tempo de solteira, que agora parecia colocado a vácuo, de tão justo que estava no corpo. As três crianças, uma de colo e duas já com idade de se saber em miséria, vestiam roupas que claramente haviam sido de doações, vindas de pessoas que queriam se livrar das tralhas de casa e marcar pontos no céu ao mesmo tempo.
É preciso dizer que não destoavam tanto assim do ambiente. Era um circo de periferia, com sua lona esgarçada, tábuas sujas servindo como arquibancadas, atrações minguadas que ganhavam hoje o pão que comeriam no dia seguinte. Fantasias remendadas com a tênue linha da sobrevivência vestiam corpos magros, elásticos e adestrados ao picadeiro.
Mas havia as luzes coloridas piscando. A voz forçadamente animada do locutor irradiando o que se veria nas performances - “Imperrrdiiiiiíveeel!”. Os balões vendidos na entrada, teimando em escapar para a imensidão ao menor vacilo de mãozinhas ainda sem firmeza de agarrar desejos. O sorriso das crianças que saíam das sessões como se voltassem de um portal onde pobreza não existe nem em dicionário. Havia a magia que só o circo sabe evocar, reverberando suas origens romanas, em que circus denominava lugar de esportes, lutas e plateias magnetizadas pelo espetáculo. O brilho no olhar.
A última sessão estava para começar. O circo ia embora no dia seguinte e aquela família imóvel feito estátua não tinha dinheiro para os ingressos. Quer dizer, até tinha, mas somente para um único ingresso. Com o costume de quem renuncia por antecipação ao que já sabe que não vai ter, o pai e a mãe abriam mão do luxo de se divertir, claro. A vida de adulto já esmagou há muito coisas supérfluas desse tipo.
Mas como escolher qual par de olhos iria se saciar com o encantamento do circo: o da filha mais velha ou o do filho do meio? Como arrancar da criança preterida o sonho enraizado? Faltou coragem para essa crueldade, a vida já tinha muitas delas. Então ficaram por ali na expectativa de um milagre, de uma sobra, de uma caridade, de um cochilo do azar. Ainda não tinham conseguido nada.
Ao ajeitar nos braços o bebê que dormia, a mãe viu ao longe o esboço de uma possibilidade. Sem pensar muito para não desistir, entregou o pequeno ao pai dizendo que ia procurar um banheiro, estava apertada. Virou as costas antes que os olhares se encontrassem.
Ela viu quando o sujeito maltrapilho ia passando em direção a um dos trailers onde o pessoal do circo morava e o seguiu. Antes que ele subisse no veículo, ela disfarçou, com um tom de ousadia, a voz trêmula:
– Quero um ingresso de cortesia.
O mal-remunerado funcionário reconheceu de imediato a morena aprumada que ele tinha cantado no dia anterior, na saída do mercadinho do bairro, onde comprava ovos e carne de terceira para o almoço da trupe.
Ela, que tinha entronchado a cara com o gracejo, agora precisava de um favor?
Ele, que só engolia ordens, agora estava na posição de mandar?
Escancarou um sorriso em que faltavam dentes e sobrava malícia. Tirou um papel amassado do bolso e foi se chegando. Esperta a sirigaita, já pegou o ingresso - ele pensou, enquanto procurava com as mãos o que achava que era seu direito na troca. Começou a abrir os botões do vestido, enfiando a cara naqueles peitos robustos, ela ainda visivelmente em choque. Mas a lambida nos mamilos provocou na mulher uma descarga de força que a fez empurrar o homem pra longe.
– Chega! Foi um bilhete só! - E saiu se recompondo enquanto corria.
Ainda chegou a tempo de empurrar ingressos e filhos na passagem que ia se fechar com o início do espetáculo. O marido, atordoado com o choro do bebê em desespero, aceitou sem questionar a explicação afobada de que um grupo tinha doado o ingresso porque alguém não pôde comparecer.
– Ele tá faminto. Dê logo de mamar.
Nela, um tremor de nojo subiu pelas pernas bambas e arrepiou o bico dos peitos. Jamais ia permitir que a língua inocente do seu anjinho tocasse a baba asquerosa que estava grudada em sua pele. Precisava de um banho, de sabão amarelo, de uma lixa que arrancasse aquela podridão.
– Vou para casa com ele, espere os meninos saírem – ordenou.
– Mas por que não dá logo os peitos? Tu faz isso em qualquer canto! Ele tá se esgoelando, mulher!
– O peito é meu e dou quando quiser!
Saiu com pressa, simulando uma briga para que ele não percebesse que no minuto seguinte as lágrimas banhavam o decote entreaberto.






















































































































































































































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