Ópera só delas é brado contra autoritarismo

24 set 2026 | 0 comentários

Por Cleodon Coelho 

A violência contra a mulher, pela quebra de um código patriarcal de conduta, é o mote de uma ópera recifense adaptada da obra italiana “Suor Angelica”, criada por Giacomo Puccini no século passado. “Suor Angelica: Resistência e Arte das Cantoras do Recife” ocupa o Teatro de Santa Isabel de sexta (25) a domingo (27), com entrada gratuita, propondo uma reflexão contemporânea sobre o papel feminino diante de opressões. A força cênica é potencializada pelo elenco e pela direção exclusivamente integrados por mulheres. A história acompanha o enclausuramento forçado de Angelica em um convento, depois de uma gravidez antes do casamento, que provocara repúdio da família. 

A trama perpassa questões como maternidade, exclusão social, culpa, luto, transcendência, opressão machista e liberdade feminina. “Abordar esses temas na arte nos ajuda a conscientizar as pessoas em relação ao retrocesso. É importante o papel da arte e da educação em conscientizar a população sobre isso. Em ‘Suor Angelica’, temos uma mulher que foi punida justamente por exercer a sua liberdade”, analisa a cantora lírica Mari Onduras, intérprete da personagem Noviça.

A adaptação recifense introduz uma narradora para facilitar a compreensão da história pelo público e ajudar a criar pontes culturais com a realidade atual. Cenografia, figurino, iluminação, ambientação teatral e todos os aspectos envolvidos na apresentação da ópera são conduzidos por mulheres para reforçar o aceno de gênero em todas as fases dessa seara artística e cultural.

Elenco e equipe de Suor Angelica. Foto Daniel Marcelino

O papel principal é interpretado pela cantora lírica Karla Karolla, também responsável pela coordenação geral do espetáculo, e pela cantora Yane Ramalho (as duas se revezam). “O projeto nasceu de um desejo que já vinha me acompanhando há algum tempo: o de realizar uma montagem de ópera que, além de levar uma grande obra do repertório lírico ao público, pudesse valorizar quem produz e batalha pelo gênero em Pernambuco, especialmente as mulheres. A criação de Puccini é muito intensa, com uma escrita musical belíssima e uma história construída inteiramente a partir de personagens femininas”, observa Karla. “A ideia envolveu montar a obra e, ao mesmo tempo, colocar em evidência a presença, o trabalho e a resistência das mulheres dentro da nossa cena lírica”, complementa.

Temas atuais, infelizmente 

A cantora Pandora Calheiros, intérprete de Suor Doutina, ressalta a atualidade dos temas evocados pela ópera escrita no início do século 20 e posiciona a encenação como ensejo para estimular reflexões necessárias sobre o papel da mulher na sociedade. “É uma ópera que aborda um tema muito atual porque infelizmente, ainda hoje, nesse momento em especial de eleições, vemos que os direitos das mulheres estão sendo questionados, estão sendo novamente colocados em jogo, então é extremamente importante o papel da arte, o papel da educação em conscientizar as mulheres, não só as mulheres, mas toda a população em relação a isso. E Suor Angelica nada mais é do que uma mulher que foi punida justamente por exercer a sua liberdade. Então a arte com certeza está aí para nos fazer refletir”, analisa.

A diretora cênica e de concepção, Rose Mary Martins, pontua: “Os mecanismos de controle mudaram. O foco antes estava na domesticação, na moralidade rígida, em políticas eugênicas. Hoje o controle se concentra na judicialização dos direitos reprodutivos, na pressão estética digital e, principalmente, na mercantilização do corpo. Lá no século 20 se controlava a reprodução para moldar a demografia e também garantir a herança familiar. Atualmente, o acesso ao aborto legal, aos métodos contraceptivos, à autonomia no parto continuam sendo a arena de intensos debates políticos e jurídicos globais. Antes, o corpo feminino era regulado por espartilhos, códigos rígidos de vestimenta e comportamento público. Hoje, por meio de padrões de beleza irreais, amplificados nas redes sociais, gerando pressões psicológicas e intervenções médicas”.

Embalada pela pianista Andréia Rocha, a trama é narrada por Isadora de Alencar. Ainda na ficha técnica, estão Hadassa Rossiter (direção musical e regência), Rose Mary Martins (direção e concepção cênica), Sebastiana Gomes (direção executiva) e Taciana Gomes (preparadora corporal). 

“Esta montagem é maravilhosa! Traz um elenco de mulheres que certamente transbordará todos esses significados para o público, porque nós temos refletido sobre tudo isso em nossos ensaios, desde o início, lá no aprendizado das músicas, e essas reflexões são levadas pra casa, e assim também difundidas em novas discussões com familiares e amigos. Já entendemos que nosso trabalho é de formiguinha mesmo. Não cessaremos”, promete a diretora musical e regente, Hadassa Rossiter.

Mari Onduras interpreta uma noviça do convento. Foto Daniel Marcenino

Cleodon Coelho é jornalista, pesquisador e biógrafo

Busca nas Edições

As mais acessadas

Leia também

0 Comentários

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Todas as Edições

Explore também outras edições da Revista Araçá e descubra novos olhares, temas e narrativas que expressam nossa proposta editorial. Cada edição reúne conteúdos exclusivos organizados por seção, ampliando o debate cultural e aprofundando diferentes perspectivas. Escolha a edição em que deseja navegar e mergulhe nas histórias, reflexões e experiências que compõem o universo da Revista Araçá.