O megafone de Gheuza protesta em defesa das mulheres            

24 set 2026 | 0 comentários

Foto Divulgação

Por Paulo André Leitão

Pesquisar documentos burocráticos, colher informações oficiais, ouvir tocantes relatos pessoais e juntar tudo para levar ao palco em uma única voz oferece, à primeira vista, o risco de não se ter criado uma peça convencional. Se o tema é violência contra a mulher, o risco certamente escala. Gheuza e o diretor Eric Valença encararam o desafio e o transformaram em “Aparecida”, que a atriz batizou como uma performance-protesto. “Não é um espetáculo, é algo que sai à rua como um megafone”, compara. Na entrevista a seguir, Gheuza antecipa o que seu megafone amplificará em duas noites solo na Fabulosa Arte Colab. 

Revista Araçá - O seu trabalho baseia-se em pesquisas feitas em delegacias de polícia e locais de acolhimento de mulheres vítimas de violência?

Gheuza - Exato. Em 2019, houve um espetáculo de teatro chamado "Trilogia do Feminicídio", do mesmo diretor, Eric Valença. Era um espetáculo grande e a história de Aparecida era um dos contos que faziam parte dele. Após a finalização desse projeto, resolvemos dar continuidade à pesquisa. Fui me aprofundando, visitei delegacias e conversei com a delegada da mulher em Santo Amaro, que na época era pioneira na área, pois não havia tanta extensão de atendimento como hoje. Como Eric tem um parente policial, conseguimos acessar fotos de algumas ocorrências. Fomos pesquisando, debatendo e assim construímos uma dramaturgia mais robusta. Nunca considerei a obra apenas um espetáculo, mas sim uma performance-protesto. O tema é vasto e possui várias camadas. Eu optei por conceber "Aparecida" como um soco no estômago. Não se pode ficar golpeando uma pessoa repetidamente; um soco certeiro é suficiente. Deixamos muitas histórias para trás, mas o resultado final é o necessário para despertar o público para o tema.

Vocês empregaram alguma metodologia para focar no que interessava na pesquisa? Já tinham experiência na área ou foram recolhendo informações conforme o acesso permitido?

Eric já havia percorrido alguns caminhos, o que facilitou para mim. Ele já tinha feito contato com a casa de acolhimento Clarice Lispector e, como é um local restrito a mulheres, eu pude entrar com as portas já abertas por ele. Na delegacia da mulher, descobrimos o horário da delegada e fomos muito bem acolhidos; ela nos deu detalhes fundamentais para entender o que era possível levar à cena. Chegamos a cogitar uma visita ao IML, mas, como sou formada em Educação Física e já estudei anatomia, utilizei a minha própria memória visual e corporal. 

Quanto tempo dura a peça?

Queríamos uma contação de história ininterrupta. A peça dura entre 50 e 55 minutos e mescla a narrativa de Aparecida, a policial, com analogias visuais e estéticas, percorrendo desde a figura da santa padroeira do Brasil até a sua representação dentro da umbanda. Ela é Oxum. 

Qual é a relação entre Nossa Senhora Aparecida e o tema de que estamos tratando?

A relação se dá pelo viés da mulher negra. A personagem é uma policial negra trabalhando em um ambiente eminentemente masculino. Esse é o atravessamento principal dela, que precisa lidar com o machismo enquanto defende a história de cada mulher vítima de violência. Ao pensarmos na questão racial, buscamos associar a personagem não a uma mulher negra qualquer, mas ao símbolo do país, que é a santa negra encontrada no fundo do rio.

Foto Carol Bradley

Você conceituou a peça como performance. É preciso haver uma química muito grande entre você e a plateia para que a obra seja compreendida e aceita, considerando como é duro ouvir esses relatos?

Sim. É duro, mas as pessoas não fogem da apresentação porque o assunto é muito próximo da realidade delas. Recentemente, fiz uma publicação nas redes sociais com um texto que diz exatamente isso: parece algo distante até percebermos que não é. Hoje em dia, todos conhecem uma prima, vizinha ou amiga que foi assediada ou violentada em diversas situações cotidianas. Elas encontram saídas e pontos de luz naquilo que está sendo dito, pois se identificam. A peça faz todo esse percurso, mostrando que existem caminhos de acolhimento, seja na delegacia, em uma religião ou em outros lugares.

Isso a peça coloca?

Sim, ela coloca. A própria personagem teve uma antepassada que sofreu violência doméstica e isso reverberou na vida dela, levando-a a seguir essa profissão. A vontade veio em um crescente.

São pontos de luz, como você chamou, que a peça oferece para reflexão. Não há didatismo na peça?

Não. A peça conta a vivência dessa policial, que também dá as suas opiniões sobre o que viveu e sobre os entraves do seu trabalho, como a falta de sustentação da denúncia por parte da própria vítima. Isso é muito comum. Uma das coisas que mais escutei da delegada e das policiais foi sobre essa impossibilidade de ajudar a mulher, pois o trabalho delas tem um limite.

Algumas mulheres até fazem a denúncia inicial, o chamado B.O., e depois desistem, não é?

Isso. Disseram-me que é muito comum. A minha parte da pesquisa foi feita a partir de 2019 e, de certa forma, essa desistência é um impedimento ao trabalho policial. Existem cada vez mais suportes que devem ser utilizados ao máximo para a mulher se sentir segura. Todos esses elementos da pesquisa são utilizados de forma sutil na peça. As pessoas que estão vivenciando a violência na própria pele saberão identificar esses caminhos e saídas porque às vezes elas estão tão imersas na situação que não conseguem ver uma solução. A arte também serve para isso.

Por que você acha que o teatro se presta para isso?

O teatro é ao vivo e firme. Ele acontece frente a frente com o espectador, o que é um grande diferencial. O teatro é imortal porque vem do social, está no meio do povo e nas situações corriqueiras. O fato de termos uma postura em casa e outra no trabalho já é, inconscientemente, um fazer teatral. O teatro sempre se alimenta dessas verdades sociais pulsantes.

É o seu primeiro solo. Como você está se sentindo?

Eu vim da peça 'Angu de Sangue', onde fazia duas cenas longas sozinha. Isso me estimulou a estar só em cena. Em 2017, comecei uma busca pessoal por essa verdade em mim mesma. Esse momento convergiu com o convite de Eric para fazer a cena de Aparecida, que depois fortalecemos. 

E agora você se sente segura diante desse desafio?

Sim, sinto-me bastante segura porque criei raízes para realizar esse trabalho, inclusive metendo-me na dramaturgia. Já existia um desenho feito pelo Eric, mas a robustez de uma dramaturgia não é fácil. Por isso não considero a obra um espetáculo completo, prefiro chamá-la de performance-protesto. É algo que sai à rua como um megafone. Espetáculo é algo de proporções maiores.

Serviço

Aparecida

  • Com Gheuza
  • Direção Eric Valença
  • Fabulosa Arte Colab - Rua Sílvia Ferreira, 110 - Piedade - Jaboatão dos Guararapes
  • 1 e 2 de outubro, às 20h
  • Libras no dia 1

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