Por Paulo André Leitão
A vida profissional de Márcio Bastos nunca se distanciou da trajetória do grupo de teatro pernambucano Vivencial. Pernalonga: Uma Sinfonia Inacabada foi seu primeiro livro. O tema do novo passo literário do jornalista e pesquisador é mais amplo. O livro recém-lançado chama-se Lantejoulas no mangue - Teatro e desbunde do Vivencial.
Revista Araçá – A biografia que você escreveu sobre Pernalonga, integrante do Vivencial, estimulou o nascimento desse novo livro?
Márcio Bastos – A minha relação com o Vivencial existe desde a minha entrada no jornalismo, em 2011, como estagiário no caderno de cultura da Folha de Pernambuco. Por coincidência, naquele ano, o Vivencial foi o homenageado do Festival do Recife de Teatro Nacional. Alexandre Figueirôa, Stella Maris Saldanha e Cláudio Bezerra lançaram o livro "Transgressão em Três Atos: nos abismos do Vivencial". Tenho até hoje o exemplar do livro. Entro no jornalismo com o Vivencial já entrando na minha vida também. Dois anos depois, Hilton Lacerda lança "Tatuagem", que é um filme que eu amo, trazendo mais uma vez a relação com o Vivencial à tona. Ao longo de mais de dez anos cobrindo teatro nos jornais daqui, primeiro na Folha de Pernambuco e depois no Jornal do Commercio, o Vivencial sempre acabava atravessando minhas pesquisas.
Em 2022, fui convidado pela Cepe para escrever o perfil biográfico do Pernalonga. Eu tinha apenas um conhecimento básico sobre o grupo. Conhecia o que todo mundo conhece: a irreverência, a transgressão, a estética que se apropriava dos descartes e do lixo para fazer arte, e a importância que a questão LGBTQIAPN+ teve para eles. Para o perfil, tive que fazer uma vasta pesquisa documental, não só sobre o grupo, mas também sobre as outras empreitadas de Pernalonga. Com isso, acabei entrevistando muitos membros do Vivencial. Não fiquei apenas nos jornais e documentos, quis ir atrás desses depoimentos orais. Isso facilitou porque criou uma relação com os membros do Vivencial. Eu não conheci Pernalonga, ele faleceu quando eu ainda era muito jovem. Era um desafio falar sobre uma pessoa que não está mais aqui. O perfil biográfico precisa ter uma alma, não pode ser apenas uma reunião de dados. Eu queria tentar capturar o espírito e a essência de alguém que eu não conheci. Como o livro foi bem-sucedido e recebi muitos depoimentos de pessoas dizendo que viam Pernalonga naquelas páginas, acredito que isso gerou uma credibilidade para o meu trabalho junto ao grupo.
No início deste ano, Schneider Carpeggiani, editor do grupo Autêntica, entrou em contato comigo dizendo que queria muito um livro sobre o Vivencial para a coleção "Nossas Histórias". Essa coleção foi idealizada para celebrar marcos da memória LGBTQIAPN+ ao redor do país, com um viés de luta, de resistência, mas também do que chamam de "fervo", da festa, da felicidade, mostrando que esses dois elementos sempre estiveram presentes na comunidade. Eles foram fundamentais tanto para o reconhecimento interno — formando esse bando e a ideia de pertencimento — quanto para a visibilidade externa.
A partir disso, me lancei numa pesquisa intensa. A princípio, achei que já tinha muito material por conta do livro do Pernalonga, mas vi que precisava fazer um levantamento muito maior. Não tanto para descobrir a história, porque ela está bem documentada — como mencionei, o livro de Alexandre Figueirôa, Stella Maris e Cláudio Bezerra, além de muitas dissertações. O Vivencial tem reconhecimento. Até conversei sobre isso com Guilherme Coelho, um dos fundadores do grupo: ele achava que o Vivencial era apagado da história. Tentei argumentar que, em Pernambuco, o grupo é conhecido, mas, nacionalmente, não tem o reconhecimento que deveria, na minha opinião. E, conversando com outras pessoas que pesquisam o Vivencial e teatro, de fato, não tem.
Você diz isso no prólogo do livro.
Isso. Se o Vivencial fosse uma experiência sudestina, estaria entre as experiências mais inovadoras e radicais do teatro brasileiro. Não apenas por ter mudado a estética, necessariamente, mas radical por mostrar que era possível fazer um teatro nordestino e pernambucano com uma identidade muito própria, acolhendo diferentes formas de fazer. Não existia um método específico do Vivencial, pois o grupo era reflexo das vivências e dos olhares dos seus membros, que eram muito ecléticos e diversos.

O Vivencial só poderia ter acontecido quando aconteceu.
E onde aconteceu. E aqui, eu acho também. O próprio Jomard fala isso. Jomard diz que não tem como ter outro Vivencial; aquilo só era possível naquela época e neste território. Há uma entrevista dele registrada no livro "Memórias da Cena Pernambucana", volume 1, de Leidson Ferraz, Rodrigo Dourado e Wellington Júnior. E Jomard fala isso inclusive porque, apesar de estarmos falando de um período de ditadura — o grupo atuou entre 1974 e 1983, um período sombrio —, a ideia de coletividade, da necessidade de reunião e de organização até da festa, era possível porque aquelas pessoas oprimidas encontravam sentido em estar juntas. Estamos vivendo um neoliberalismo tão forte que o individualismo, que estava cada vez maior, hoje em dia piorou.
E tem essa conceituação, essa valorização e idealização do empreendedorismo.
Exatamente. Meu avô era professor de história e falava que houve uma desmobilização da classe trabalhadora, porque hoje em dia todo mundo é empreendedor de si mesmo. Existe a ideia de que você não se vê como parte de um coletivo; o sucesso depende apenas de você. Se tem um problema, a culpa é sua, porque você não se esforçou o suficiente, e não que o sistema o oprime. O Vivencial traz uma luz muito grande para os dias de hoje: a ideia de que juntos conseguimos muita coisa. Como é que esse bando de loucos — porque era uma loucura conseguir colocar na rua o que eles colocavam — enfrentava um sistema desenhado para oprimir justamente aquelas pessoas: pobres, pretas, mulheres, LGBTs, dissidentes de todo tipo? Estudando o grupo e tentando trazê-lo para o hoje, percebi que ele traz essa fagulha de esperança, de uma crença na coletividade, na criação coletiva e no respeito às diferenças. E isso sem ser apenas uma coisa bonitinha. Eu tinha muito medo de parecer que eles eram todos felizes e sem problemas. Eles tinham problemas internos; é difícil conciliar diferenças, mas existia um desejo genuíno de estar junto e de acolher.
Você escapou do risco de ser politicamente correto?
Eu tentei realmente não cair nisso. Espero ter conseguido. Nunca temos controle sobre como a obra será recebida, mas lidar com a memória é uma dificuldade grande, especialmente uma memória tão coletiva. Algumas coisas se cristalizam na cabeça de uns, outros têm outra percepção, e como jornalista e pesquisador, você tenta encontrar um meio-termo que se aproxime ao máximo da realidade. O que podia comprovar com documentos e checagem, eu comprovei. Coisas do âmbito íntimo dependem de depoimentos. Diante de histórias que pareciam absurdas, eu ia confirmar com duas ou três pessoas, e todo mundo lembrava do mesmo jeito. Era muito fascinante.
O que foi mais marcante para você, que há tanto tempo faz cobertura de teatro e cultura, nesse seu trabalho?
Foi realmente perceber a força dessa experiência do Vivencial. Como eu disse, eu lia e conhecia a respeito, mas, convivendo com essas pessoas que hoje estão com seus 60, 70, 80 anos, percebi como a experiência foi transformadora em nível pessoal para cada um. Eu conhecia as contribuições para o teatro, mas não tinha dimensão de como o grupo foi essencial para a comunidade LGBT aqui.
É algo que vai além do teatro?
Vai além do teatro. Fiquei muito impressionado ao ver como eles se meteram em tudo de cultura: se juntaram com o pessoal do cinema, das artes visuais. Tenho começado a pensar no Vivencial quase como um movimento cultural, mais do que apenas um grupo de teatro. Acho que por isso Jomard ficou tão fascinado e acompanhou o Vivencial até o fim, sendo uma figura crucial para manter viva a memória e a importância do grupo, reforçando sempre o impacto deles.
Foi o mais marcante no seu trabalho propriamente dito.
Exatamente. Foi pensar o Vivencial não só como um grupo de teatro — embora tenha sido importantíssimo —, mas como um movimento cultural. Eles não se deixavam cooptar por nada. Não se diziam puramente anti-armoriais, anti-TAP ou da "Pernambucália". Estavam sempre no meio, e se alguém tentasse rotulá-los, eles fugiam daquilo, pois queriam mesmo era sacudir as coisas e desorganizar o sistema.

Acho que hoje eles não se enquadrariam em nenhum edital para disputar verbas públicas ou privadas.
Em nada. Não se enquadrariam. No livro eu conto algo muito engraçado: eles ganharam alguns prêmios de fomento, do Inacen e do Projeto República. Só conseguiram isso porque fizeram uma concessão. Decidiram montar textos clássicos, pois era só o que aprovariam. Montaram "Viúva, Porém Honesta" e "Sobrados e Mocambos" do jeito deles. Hackearam o sistema para ganhar aquela verba, que não foi usada para pagar cachês, mas para comprar um terreno e montar a casa deles. O objetivo era fazer essa concessão para terem o próprio espaço e não precisarem mais dar satisfação a ninguém. Eu uso muito no livro a expressão "malcriados". Eles eram muito malcriados.
Há motivos para se celebrar o Vivencial ainda hoje?
É sempre bom celebrar o Vivencial. Especialmente num momento tão conturbado para o país, sempre à beira de um grande obscurantismo. Quando nos sentimos abatidos e sem perspectiva, devemos lembrar que, num dos períodos mais brutais da nossa história, a ditadura militar, um bando de jovens no Nordeste, em Pernambuco, decidiu fazer a mudança com alegria, arte, cultura e coletividade. Eles não tinham a dimensão da revolução que estavam criando, mas entendiam que, organizando-se no coletivo, mesmo com suas desorganizações, conseguiam criar mundos possíveis de fabulação, afeto e generosidade. Muitas vezes perdemos isso quando estamos amedrontados. Eles iam lá e faziam do jeito que dava, muitas vezes sem um centavo. O Vivencial acreditou nisso desde o começo: "Se der certo, deu; se ganhar dinheiro, ganhou; se não, tudo bem também. O que importa é estarmos juntos fazendo".
E muitas vezes sem saber exatamente o que iria ser feito.
Exatamente, sempre abertos às possibilidades. Acho que o Vivencial traz essa lição: se joga, que a gente faz dar certo.








































































































































































































































































0 Comentários