Por Luiz Antonio Mousinho
Jomard foi meu professor no curso de Comunicação (Jornalismo) entre 1984 e 1986, em duas disciplinas na Universidade Federal da Paraíba. Trabalhei desde o início do curso, era tudo corrido, fui ter professores pessoalmente próximos na minha segunda graduação, Letras e nas pós. Não fui próximo de Jomard, implicava com Jomard com alguma frequência, me incomodava com as provocações dele, ficava a meia distância quando ele ensaiava aproximação, discordava de algumas coisas. E me interessava por muitas outras. Lembro de desdenhar quando ele, em aula, previu que se Maria Bethânia ouvisse as canções de um dos alunos do curso, que eu só conhecia de nome, ia querer gravar todas – e décadas depois ela passou a gravar muitas canções dele, Chico César. Achava que ele falava demais nos anos 60, só depois fui entender que estávamos muito próximos dos anos 60. Mas, mesmo não me aproximando tanto, estava sempre no entorno de Jomard, não só como aluno, mas pelo agitador cultural que ele era, na cena cultural de João Pessoa, que passei a viver muito de perto.
Nos 1980, lembro dele convidando a mim e a uma colega de turma para um almoço no centro da cidade no fim de semana para discutir um trabalho de disciplina, experiência incomum para mim, um adolescente mimado, ali ainda caseiro e recém-saído de escola católica. O tempo foi passando e foi não foi a memória trazia as aulas provocativas e provocadoras; as muitas incitações a pensar e viver que me desconfortavam e estimulavam; a primeira monografia que escrevi por determinação dele (sobre o tropicalismo, claro); um cartão postal generosamente enviado de São Paulo, onde ele sinalizava que vivia por lá dias “de crises e crases”.
Por essa época, meu amigo Vinícius Navarro, que também estudou na UFPE e foi aluno dele na UFPB, fez uma palestra num evento da Aliança Francesa paraibana e apreendeu um viés de “melancolia resignada” na nossa geração. Me disse há pouco de réplicas jocosas ouvidas de Jomard, tão distante de um humor melancólico. Anos depois lembro de meu amigo Marcelo Coutinho, sempre chamado por Jomard de Marcelindo, me contando da demissão dele como secretário da Cultura por ter convidado prostitutas para verem exposição em galeria de arte do Estado. E é claro que achei ótimo, foi crescendo para mim a importância de Jomard.
Meus amigos Jô Bonfim e João Vianney (professor da UnB), por sua vez, me falaram de perambular com ele pela noite de Recife, numa região chamada Boulevard do Crime (“não andem por aqui sem mim”, dizia ele), e vê-lo tratado com extremo respeito e admiração pelos locais (“boa noite, professor!”), no mais das vezes prostitutas, travestis e marginais em geral.
Em 2000 estive com Jomard e amigos numa noitada no bar Beirute, durante congresso de literatura na UnB, ele impecavelmente vestido com terno que, como me alertou, era réplica do figurino da turnê do disco Livro, de Caetano Veloso. Falei mal da fase de Gal Costa, ele rebateu, continuava um paladino do tropicalismo. A partir dessa época passei a vê-lo em encontros rápidos e afáveis no CAC da UFPE, eu chegando em bancas de Sônia Ramalho, Ângela Prysthon, Paulo Cunha. Recordo também dele distribuindo um poema impresso na Unicap, durante o Socine de Recife em 2004. Lembro de, viajando cedo de um sábado para o litoral sul da PB, ter visto Jomard, com sua indefectível camisa comprida, dentes ao sol caminhando na ponta do Cabo Branco e o grito que dei da janela o assustou, antes de dar um riso. E da entrega do título de professor emérito da UFPB, que acompanhei, mas nem consegui ficar para cumprimentá-lo ao final.
O tempo passando, a memória antiga vem voltando e a minha está um assombro. Fiz 60 anos, Jomard me voltava em frases, conversas, palestras, de modo que justamente duas semanas antes de sua partida eu catei pela internet o livro da editora Azougue que reúne entrevistas com ele, guardando para primeira leitura das férias, tentando talvez entender o que não entendia dele na minha juventude. Me espantei meses antes ao vê-lo dizer, na entrevista para Antônio Abujamra, que havia o trabalho com Paulo Freire na UFPE, mas que ele tinha dupla identidade, pois na Paraíba encarnara o tropicalista, quando eu sempre o imaginara um tropicalista de nascença.

Numa reunião, anos atrás, no Departamento de Comunicação da UFPB, o professor João de Lima Gomes falou para o colegiado da intenção de Jomard doar sua biblioteca e arquivos para a universidade. Mas com a condição de o espaço a receber o material ser batizado com seu nome. Tive uma crise de riso no meio da reunião, João fez cara de chateado, tive que respirar e explicar que não estava tripudiando em hipótese alguma da proposta e que a achava maravilhosa. A crise de riso era porque a exigência me trouxe Jomard inteiro, com sua coragem de assumir sua vaidade, coisa que estava em todos nós mas nenhum de nós assumiria.
Encontrando Alexandre Figuerôa, Paulo Cunha, Rubens Machado Jr., vez em quando perguntava por ele. No congresso da Socine em João Pessoa, 2017, Rubens especulava, em conversa comigo, o que teria motivado o não comparecimento dele à homenagem que recebeu do evento, em solenidade no Teatro Santa Roza. Talvez a aversão de Jomard à institucionalidade.
A última vez que vi Jomard foi por volta de 2019, no Bairro do Recife, na Rua da Moeda, em pleno carnaval, ele descendo um maracatu amparado por um casal amigo. Tendo já bebido um bocado, dei uma carreira e me aproximei esbaforido para dar um abraço nele, que ficou mais assustado do que outra coisa, não deve ter nem lembrado quem era.
Figuerôa, nos últimos anos, me falava da preocupação com o fato de Jomard, já idoso, sair sozinho para ver filmes no São Luiz. Em tempos mais recentes fiquei pensando na beleza desse ir vivendo até o fim, mesmo com o risco de perder-se no emaranhado da frequentação fascinada da metrópole pernambucana. E Jomard me voltou nas imagens de seu filme no qual atua, trecho montado em Retratos fantasmas.
Fiquei pensando, mesmo antes dele partir, no quanto perdemos por vezes a chance de entrar mais na vida das pessoas, perdidos na confusão de tanta noite e tanto dia, como já foi dito numa canção. E das pessoas que passaram por nossa vida e não soubemos amá-las o suficiente. De toda forma, vendo a gana de Jomard em tecer relações, transitando pelas ruas do centro da minha Cidade da Parahyba, filmando no trânsito pelas paredes velhas do Hotel Globo com o rio Sanhauá a seus pés; e pelas pontes de Recife; ou se perdendo à beira do Capibaribe nos desvãos de uma memória que foi se apagando nos seus anos finais; fico pensando que, assim, “tudo é vivo, primário, lento, interessado, tudo é primariamente imortal”.








































































































































































































































































0 Comentários